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Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes e da ANDHEP

Meghan Markle: violação de direitos da mulher negra não conhece limites sociais

Após entrevista na qual a atriz casada com Harry revelou racismo na família real britânica, não há mais desculpas para não se enxergar o problema em qualquer lugar do mundo

Publicado em 10/03/2021 às 02h00
Harry e Meghan Markle são entrevistados por Oprah
Harry e Meghan Markle foram entrevistados por Oprah . Crédito: Reprodução

No último domingo (07), foi ao ar nos Estados Unidos a tão esperada entrevista do casal Meghan Markle e Harry com a apresentadora Oprah Winfrey. Foram tantas revelações, até mais bombásticas do que se esperava, que vale a pena trazer algumas aqui hoje para a nossa reflexão sobre os preconceitos racial e de gênero que ainda permeiam a sociedade contemporânea.

Foi a própria Oprah que revelou suas preocupações sobre a aceitação de Meghan no seio da família real britânica ao relembrar os detalhes do casamento dela com o Príncipe Harry. Já ali, pelas minúcias da celebração com vários elementos da cultura negra norte-americana, lembrou a entrevistadora, seria possível antever que Meghan não teria uma vida fácil em Londres.

Mas, mesmo assim, ainda não se podia prever o que realmente se passava entre o casal e a família real, como finalmente revelado na entrevista. A questão racial foi o ponto focal da entrevista, justamente porque foi o motivo que levou o casal a se afastar da casa real e mudar-se para a Califórnia, onde residem atualmente.

A situação teria ficado insustentável quando um membro da família real perguntou a Harry quão escuro seria o tom da pele de Archie, filho do casal que Meghan estava esperando. Se não bastasse, posteriormente ainda foi informado a Meghan que seu filho não teria qualquer título real, tampouco teria ele os cuidados necessários para a manutenção de sua segurança e integridade.

Tais fatos parecem sair de um livro de história, como se fossem narrativas de uma época que já ficou para trás, mas não, são esses os relatos da vida cotidiana de uma mulher negra vivendo no Reino Unido contemporâneo. Quem até hoje não conseguia ver o problema do racismo estrutural no mundo em que vivemos, seja aqui no Brasil, seja na Inglaterra, agora não tem mais desculpas!

Certamente as questões raciais que permeiam o racismo estrutural no Brasil não são as mesmas relatadas nas relações de Meghan com a família real, porém os seus relatos apontam para dois problemas globais que se infiltram por todas as estruturas das sociedades contemporâneas: o racismo e o racismo de gênero.

A dupla violação de direitos imposta à mulher negra não conhece limites sociais nem barreiras fronteiriças, a cor da pele e o gênero pesam sobre ela como um fardo insofismável, fazendo a sua própria existência ser colocada em risco, como relatou Meghan em sua entrevista.

Houve momentos em que ela pensou em tirar a própria vida. Meghan relata à Oprah que, ao perceber que estava tendo pensamentos suicidas, passou a procurar ajuda dentro do palácio, mas nunca a obteve: a ela não foi nem sequer autorizado o tratamento psicológico ou psiquiátrico para lidar com a doença.

A pressão psicológica vinda da sociedade, da imprensa e da família sobre as pessoas no momento em que vivemos se faz cada vez mais presente, são diversos os relatos de tentativas de suicídios ou mortes cometidas em razão de profundo estado depressivo. Para complicar a situação, a pandemia e o afastamento social por ela imposto têm afastado as pessoas de suas redes de proteção, impedindo assim que momentos de acolhimento, empatia e altruísmo quebrem o ciclo da depressão que leva ao suicídio

O relato sincero e aberto de Meghan à Oprah é um chamado, também, para a questão do adoecimento psicológico que está latente no mundo contemporâneo, mas que vem sendo acobertado pelas autoridades, em especial durante a pandemia. É preciso colocar em pauta para discussão o adoecimento psicológico e as mortes impostas pela depressão. Falar é sempre a melhor saída, como fez Meghan e como recomenda o Centro de Valorização da Vida (CVV) em suas campanhas como a do Setembro Amarelo.

Diante de tantas circunstâncias negativas, como o racismo dentro da própria família, a discriminação de gênero e os pensamentos suicidas, fica o exemplo e a coragem de Meghan Markle como um símbolo do feminismo contemporâneo, aquele que é silenciado, derrubado, desqualificado, mas que segue em frente e não se deixa calar.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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