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Pausa

Gabriel Medina e a saúde mental: aceitar que todos sofrem é o primeiro passo

Ídolo do surfe mundial informou que vai deixar de competir nas fases iniciais do campeonato mundial a fim de cuidar de sua saúde mental

Públicado em 

26 jan 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Gabriel Medina conquistou o tricampeonato mundial de surfe
Gabriel Medina em mais uma conquista: tempo para cuidar da saúde mental Crédito: WSL/Divulgação
A saúde mental no mundo do esporte se tornou uma questão importante para o debate público no ano passado. Primeiramente, em maio de 2021 a tenista japonesa Naomi Osaka se retira do Aberto da França. Depois, durante as Olimpíadas de Tóquio, foi a super campeã Simone Biles que desistiu de disputar a final individual geral da ginástica artística.
Simone Biles, me pareceu, teve que se explicar demais por tomar essa decisão, foram muitas entrevistas, justificativas, fez quase uma prestação de contas ao público, apesar de estar visivelmente sofrendo. Em entrevista ela disse que “a saúde mental é mais importante nos esportes nesse momento. Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos e não apenas sair e fazer o que o mundo quer que façamos”.
Nesta segunda-feira (24), foi a vez do ídolo do surfe mundial, o brasileiro Gabriel Medina, informar que deixaria de competir nas fases iniciais do campeonato mundial a fim de cuidar de sua saúde mental. Medina não vai disputar as famosas etapas de Pipeline e Sunset no Havaí este ano, tendo postado em seu Instagram a explicação: “Tenho questões emocionais que estou precisando lidar. Venho de meses muito desgastantes. Reconhecer e admitir para mim mesmo que não estou bem vem sendo um processo muito difícil, e optar por tirar um tempo para me cuidar foi talvez a decisão mais difícil que já tomei em toda minha vida".
Os atletas de ponta, aqueles que participam das Olimpíadas, acabam se tornando grandes ídolos mundiais. Em seus países de origem eles são como super-heróis, fortes e poderosos. A opinião pública até pouco tempo nem sequer cogitaria um adoecimento psicológico que levasse os grandes astros do esporte para fora do jogo. Mas os exemplos de Biles e Medina vão servir para chamar atenção para um problema muito grave pelo qual passa a nossa sociedade.
O adoecimento psicológico não é brincadeira, não existe um tipo específico de pessoa que pode vir a sofrer com isso; nem mesmo os que se mostram mais fortes externamente estão livres dos problemas do dia a dia, que os levam a sofrer como todas as outras pessoas do mundo.
Não existe um tipo de ser humano mais forte e mais corajoso e outro tipo mais fraco e mais suscetível ao adoecimento psicológico. Existem circunstâncias da vida que podem atingir indiscriminadamente qualquer pessoa e fazê-la sofrer internamente.
Na esfera da vida cotidiana, a Síndrome de burnout passou a ser considerada desde 1º de janeiro deste ano (2022) uma doença ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O burnout é o total esgotamento profissional, causado pelo estresse crônico no trabalho que leva ao esgotamento físico e mental da pessoa. De acordo com a OMS, o burnout pode ser identificado a partir dos seguintes comportamentos: “sensação de esgotamento, cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho e eficácia profissional reduzida".
Toda atividade humana no mundo atual, em meio à pandemia de Covid-19, pode levar ao estresse crônico e ao adoecimento psicológico. O adoecimento não tem data nem hora para aparecer, tampouco tem um público-alvo certo. Como vimos nos exemplos de Osaka, Biles e Medina, até mesmo os mais fortes sofrem, têm suas dores e carências.
Mesmo Simone Biles, a ginasta norte-americana de maior sucesso de todos os tempos, por já ter ganho mais de 30 medalhas em Olimpíadas e Mundiais (só na Rio 2016 foram 4 de ouro e 1 de bronze), chegou a um ponto em sua vida em que pensou: “Não confio mais tanto em mim mesma".
Quantos de nós já não pensou dessa mesma forma? E, provavelmente, se envergonhou até mesmo de ter pensado isso. O ato corajoso de se manifestar publicamente tanto de Biles como de Gabriel é muito bem-vindo para ajudar na conscientização sobre a necessidade de reconhecer a dor psicológica e o sofrimento que permeia as vidas no planeta.
Aceitar que até mesmo os mais fortes sofrem é perceber a fragilidade da vida humana e a necessidade de aceitar os outros com mais solidariedade e alteridade. Reconhecer no outro um ser humano cheio de defeitos e qualidades, que assim como todos os outros seres sofre, adoece e é forte quando pode... mas se apresenta fraco e adoecido também. Não existe ninguém mais forte e mais poderoso que o outro, a humanidade nos nivela a todos.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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