Sair
Assine
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Meta para 2022

É preciso permanecer na luta contra a brutalidade em todo o mundo

A forma como os mais vulneráveis entre nós têm sido desrespeitados, não reconhecidos como seres humanos, é um fenômeno doentio que atravessa fronteiras e nos entristece a todos

Publicado em 05 de Janeiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

05 jan 2022 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Nesses últimos dois anos, o mundo passou por um das maiores provas de fogo para a humanidade, paralisado em razão da Covid-19, com cidades fechadas, pessoas em quarentena, trabalho remoto e escolas fechadas, ao mesmo tempo em que hospitais ficaram superlotados e muitos pacientes foram rejeitados por falta de vaga. Até aqui foram aproximadamente 5,4 milhões de pessoas mortas pelo coronavírus no mundo todo.
Mas os dois últimos anos registraram também o aumento da brutalidade no planeta, a brutalidade com que as pessoas mais fracas entre nós são tratadas. Achille Mbembe, professor senegalês, autor do livro "Necropolítica" (publicado no Brasil em 2018, pela editora N-1 Edições), relembra que a brutalidade vem se tornando prática comum nas interações humanas, em relação aos negros, à população indígena e LGBTQIA+, em relação a seres não humanos como o meio ambiente e os animais. Para ele, a ignorância é cultivada como estratégia, tanto por quem detém o poder, como por quem é dominado ( "O Mundo de Joelhos",  Achille Mbembe entrevistado por Iman Rappeti, FLUP).
Não podemos esquecer que foi durante a pandemia que George Floyd foi assassinado. Aqueles oito minutos e alguns segundos que atravessaram fronteiras e chegaram via internet a todo planeta aconteceram em 25 de maio de 2020. A decisão entre sair às ruas e se juntar aos protestos chamados pelo grupo #blacklivesmatter foi difícil para muitas pessoas, mas foi necessário. A onda desencadeada foi enorme e se alastrou por toda a Terra. E, lembremos, o manifesto do movimento vai muito além da perseguição contra negros por policiais brancos nos Estados Unidos, ele envolve o sofrimento que é causado aos mais fracos na luta da vida cotidiana em vários lugares do planeta.
A violência contra mulheres também se tem revelado com uma nova face, exercida cada vez com mais brutalidade. Aqui no Espírito Santo o número de feminicídios em 2021 voltou a aumentar e o número de medidas protetivas com amparo na Lei Maria da Penha também. Em vários casos, essa violência é praticada na presença de crianças e de forma extremamente violenta.
No domingo passado (2 de janeiro), a BBC Brasil publicou reportagem na qual relata que na Índia 22.372 mulheres que trabalham em casa cometeram suicídio em 2020, uma média de 61 suicídios de mulheres por dia ou um a cada 25 minutos. Um estudo demonstra que um terço dessas mulheres sofreu violência doméstica, tendo sido agredida fisicamente por seus maridos.
A forma como os mais vulneráveis entre nós têm sido desrespeitados, não reconhecidos como seres humanos, é um fenômeno doentio que atravessa fronteiras e nos entristece a todos. Achille Mbembe levanta a tese de que o mundo passa agora a tratar os mais fracos como sempre tratou os negros, os quais foram escravizados e sofreram com o colonialismo na África, na Idade Moderna. É por isso que o Movimento Black Lives Matters não é só contra o racismo, é também contra a forma como pessoas vêm sendo excluídas da vida no planeta.
Esses dois anos de pandemia trouxeram à tona toda essa violência que se torna cada dia mais brutal e que tem alvo certo: as pessoas que o sistema entende que não contam como seres humanos dignos. Ou seja, se você é negro, migrante forçado, mulher, indígena e LGBTQIA+, você é tratado de forma diferente. Alguns conseguem superar a barreira da pergunta "Quem é útil e quem não é útil (podendo ser descartado)?", mas muitos vêm sendo deixados para trás dos avanços tecnológicos e financeiros da sociedade contemporânea.
O meio ambiente também é alvo de injustiça ambiental, sem ter voz para se defender, dependendo de movimentos sociais e das populações indígenas para chamar atenção para a causa, conclamando para uma vida mais solidária na Terra. Temos que nos tornar seres mais solidários, solidários aos mais fracos e aos seres não humanos que precisam de proteção.
Diante de toda essa situação de brutalidade, que fica pior a cada dia, temos em 2022 dois caminhos: se você já é um defensor de direitos humanos, continue fazendo exatamente o mesmo (esqueça aquela ideia de ano novo, vida nova); se você não é, reflita, tente ser mais solidário a partir de agora (aí sim, para você, vale a vida nova!).

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
STJ decide que Águia Branca deve assumir 125 linhas da Itapemirim
Mascote do dia
Capixabas lançam figurinhas com mascotes para países da Copa do Mundo de 2026
Henrique Krüger
Capixaba supera adversidades em Interlagos e mantém sequência de pontuação na Fórmula Delta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados