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Criação de filhos

Deixem as crianças fantasiarem!

No Natal temos uma quebra no cotidiano. E essa é uma excelente metáfora para se apreender na infância. Renovamos nossos humores, nossas esperanças. O lúdico invade as crianças e também os demais membros da família

Publicado em 14 de Dezembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

14 dez 2020 às 05:00
Bianca Martins

Colunista

Bianca Martins

Crianças poderão falar com o Papai Noel por videochamadas, durante todos os dias
Fantasiar é exercitar hipóteses do mundo sem ter que correr o risco de vivê-las na realidade. Quando uma criança pula do sofá, ela experimenta o que seria saltar de uma montanha Crédito: Divulgação SV
Estarrecida é a palavra me descreve essa semana. Eu infelizmente ouvi, de uma colega da área psi, pessoa esclarecida e estudada, uma “influenciadora” no mundo digital, que, em sua casa, não tem essa de Papai Noel, pois as crianças precisam conhecer o mundo real.
Para não entrar no embate virtual - nesta época do ano, o ideal é evitar a fadiga - eu me permito usar esse espaço semanal para fazer um desabafo:  O que terá acontecido na infância dessa pobre alma que a fez crescer tão amarga quanto às fantasias da infância?
A capacidade de fantasiar é altamente especializada na experiência humana. Ao contrário dos animais que repetem sempre os mesmos comportamentos: alimentar, fugir, acasalar... os humanos inventam. E como são inventivos os humanos! Principalmente os brasileiros. Somos o país dos memes, só para constar, dada nossa criatividade.
Inventamos formas de comer, de fugir, de namorar. Criamos modos dos mais variados possíveis para nos relacionar, a pandemia nos confirma esse aspecto, dia-a-dia, não é?
Pois bem, eu gostaria de dizer para a colega influenciadora que as crianças fantasiam para sair do estado psíquico de alienação ao outro, para se constituírem enquanto sujeitos autônomos e desejantes. Eu nunca fui e nem serei uma princesa – sim, vou usar esse exemplo muito piegas - mas me pergunto o que teria sido de Catherine Middleton, a Kate, mulher do príncipe Willian, se não tivesse na vida vislumbrado essa possibilidade. Vemos, hoje, a plebeia que um dia será a rainha da Inglaterra. O que seria sido de Marie Curie, minha primeira grande ídola, se não pudesse ter brincado com os instrumentos de seu pai? Numa época em que só se esperava das mulheres a função de mãe. Não teríamos o RX que nos auxilia na luta contra tantas doenças.
Fantasiar é exercitar hipóteses do mundo sem ter que correr o risco de vivê-las na realidade. Quando uma criança pula do sofá, ela experimenta o que seria saltar de uma montanha. Quando escapole entre uma almofada e outra, está andando sobre a lava quente no chão da sala. Experimenta o perigo real no conforto seguro da imaginação. Quando nada em uma piscina de bolinhas, está fugindo de tubarões, expande o fôlego!
Portanto, é tão “anti-infância” retirar os elementos culturais das possibilidades infantis. Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada-do-Dente, que delícia ter todos esses personagens! Nós, adultos, acreditamos nos políticos. Quem está mais equivocado? Desculpem, mas a ironia se tornou inevitável.
"Independentemente de quem traz os presentes, da sua crença pessoal, o mês de dezembro fala sobre renovação. Arrumamos a casa de um jeito excêntrico e festivo, cheio de brilho e cores - não muito usuais, sem dúvida. Me lembro que certa vez, no Natal, fizemos uma árvore cheia de flocos de isopor. E ai de quem afirmasse que eu nunca tinha visto neve na vida! Aqueles floquinhos brancos no meio da sala, junto aos meus primos e tios, são uma lembrança viva do frescor que jamais teremos aqui desse lado dos trópicos nessa época do ano."
Bianca Martins - Psicóloga
No Natal temos uma quebra no cotidiano. E essa é uma excelente metáfora para se apreender na infância. Renovamos nossos humores, nossas esperanças. O lúdico invade as crianças e também os demais membros da família. Em dezembro, tudo se transforma, e devemos no animar para esperar o novo ano, as novas relações e experiências. Que alívio poder renovar a vida!
A criança não precisa conhecer o “real” da vida. Uma vida sem fantasia é uma vida vazia. É uma vida menos colorida. Devemos, sim, proteger nossas crianças da realidade da vida, o que é bem diferente, torná-la mais branda, palatável para esses seres humanos de tão pouca idade. Portanto, sonhemos com a noite de Natal, sonhemos com as possibilidades do futuro... E adultos amargurados, já para o divã tratar dessa rabugice! Sua criança interna pode e deve ser salva. Esse é um dos meus votos para o advento!

Bianca Martins

É psicóloga, psicanalista, entusiasta da maternidade, paternidade e mestre em Saúde Coletiva. Escreve sobre os bebês, as emoções, os comportamentos, os conflitos e dilemas contemporâneos do tornar-se família

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