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Outubro Rosa

A mulher cuida de todos, mas quem cuida da mulher?

No consultório, as mulheres se queixam de quando não são ouvidas e consideradas. Reclamam das parcerias amorosas que estabelecem e como não se sentem suficientemete cuidadas por seus cônjuges

Publicado em 17 de Outubro de 2020 às 06:00

Públicado em 

17 out 2020 às 06:00

Colunista

Mulher é cuidadora
O cuidar dos filhos, dos pais, do cônjuge, das amigas, enfim, o cuidar é ato recorrente do universo feminino Crédito: Shutterstock
A propaganda, desde os anos 90, determina: se toquem, mulheres! O câncer de mama é diagnosticado principalmente pelo autoexame das mamas. Mas, ainda hoje, mesmo diante da difusão da importância de apalpar as mamas após o período menstrual, todos os meses, o que podemos notar é que muitas mulheres não conhecem os próprios corpos. Usei a manipulação das mamas como mote, mas muitas mulheres, por pudor ou por ignorância, não conhecem seus próprios corpos. Partindo do corpo orgânico para a questão que me concerne, noto que as mulheres não “se tocam” quanto as suas emoções.
No consultório, no privativo da escuta de cada história, as mulheres se queixam de quando não são ouvidas e consideradas. Reclamam das parcerias amorosas que estabelecem e como não se sentem suficientemente cuidadas por seus cônjuges. Quando adoecem, a queixa aumenta exponencialmente. O cuidar dos filhos, dos pais, do cônjuge, das amigas, enfim, o cuidar é ato recorrente do universo feminino.
"Se eu puder assinalar uma função tipicamente das mulheres em nossa cultura, destaco o cuidar do outro, primordialmente. As mulheres que cuidam de si mesmas, que se colocam como prioridade, muitas vezes são tidas como egoístas, narcisistas, fúteis e sem coração. Quando um homem adoece, com muita frequência, uma mulher estará ao seu lado durante o tratamento, mas quando uma mulher adoece, o contrário nem sempre é verificado"
Bianca Martins - psicóloga e psicanalista
Cuidar de uma pessoa doente requer dedicação, abnegação, solidariedade e empatia. Não que os homens não tenham essas características, mas ora se acomodam na função de provedor, ora queimam a largada da maratona no início do tratamento de suas companheiras, delegando-a a outra pessoa. Vivemos em um cultura voltada à performance, à felicidade, ao sucesso. Quando alguém da família adoece, põe nossa condição humana, que é finita, escancarada. A pessoa doente é a lembrança constante que teremos um fim, um dia.
Um tratamento para cuidar de um câncer vai mobilizar não apenas questões de saúde, como acesso aos diagnósticos e aos tratamentos, mas também questões familiares e sociais importantes. Tudo é revirado quando alguém da família adoece. Quando é a mulher, a mãe, ainda mais. No melhor dos casos, a mulher, se tiver apoio familiar, e condições de tratar sua condição, superará seu adoecimento. Mas há situações onde uma família inteira pode se desestabilizar provocando marcas profundas por gerações.
É urgente lembrarmos que, embora vivamos numa sociedade que difunde o individualismo a todo custo, somo seres gregários, ou seja, precisamos do grupo social e familiar, do momento que nascemos até a nossa morte. No adoecimento não é diferente. As mulheres são os principais sujeitos que mantêm a coletividade e a afetividade funcionando. Portanto, quando uma mulher que conhecemos adoece, deveríamos todos retribuir os cuidados recebidos, por nossas mães, professoras, psicólogas, tias, enfim, todas as que cuidaram e hoje estão vulneráveis.

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