ASSINE
É psicóloga, psicanalista, entusiasta da maternidade, paternidade e mestre em Saúde Coletiva. Escreve sobre os bebês, as emoções, os comportamentos, os conflitos e dilemas contemporâneos do tornar-se família

A dificuldade em ser mulher no Brasil no último ano

Se alguém não está impactado, é porque não entendeu o que está acontecendo no nosso país e no mundo. Quem está cuidando e garantindo que os direitos já conquistados das mulheres sejam mantidos e que novos direitos sejam adquiridos?

Publicado em 08/03/2021 às 02h00
Mulheres tristes
As mulheres mais impactadas são as que não têm apoio dos pais das crianças, as que cuidam de filhos com necessidades especiais, as que vivem nas periferias. Crédito: Freepik

Pergunta: "Olá, eu tenho 75 anos. Minha filha tem 40 e dois filhos. Acabou de ser demitida. Ela é quem provê as crianças, com a minha ajuda. Vejo sua luta, não consegue emprego. Tem sido difícil ser mulher no Brasil no último ano", Clementina

Clementina, quanta sensibilidade a sua. É o que esperamos das mulheres da sua idade, que emanem sabedoria e acolhida. Sua preocupação com sua filha e seus netos é algo que a grande maioria das famílias atravessa nesse momento. Se alguém não está impactado como você, é porque não entendeu o que está acontecendo no nosso país e no mundo.

A filósofa francesa Elizabeth Badinter escreveu há alguns anos um livro que gosto muito e que se chama “O conflito: a mãe e a mulher”. Ser mãe e ser mulher nos dias de hoje não é para principiantes. Na verdade, nunca foi.

O livro foi publicado em 2010 e a autora já antevia em sua tese a seguinte questão: quando estamos uma nação em crise financeira, as mulheres são as primeiras a serem dispensadas do seu trabalho remunerado. Pasmem! Eu recomendo a leitura dessa obra a todas as mulheres.

Eu escrevi um artigo sobre isso, para essa coluna em novembro do ano passado e a questão está mais fresca do que peixe recém-capturado na rede.

Hoje é dia 08 de março e não temos motivos para comemorar. Até porque essa data não é comemorativa, festiva. Ela carrega o peso do luto, da morte de operárias em um incêndio. Da luta das mulheres por direitos iguais. Isso mesmo, direitos iguais.

Embora muitas pessoas pensem, ainda hoje, que as mulheres demandam privilégios. A luta das mulheres é por equidade, e não por igualdade, até porque mulheres e homens jamais serão iguais. Há um corpo físico diferente, há uma cultura que organiza os exercícios das funções e principalmente e muito esquecido, há o psiquismo.

Sim, homens e mulheres são distintos quanto ao funcionamento psíquico. Não há como negar, embora muito se tente. Há também a questão do cuidados dos filhos. Homens e mulheres se ocupam de suas funções parentais de modos verticais e não horizontais. São as diferenças incompreendidas que perpetuam os altíssimos índices de violência contra as mulheres.

Perdas

Como você testemunha em sua pergunta, sua filha cuida dos seus próprios filhos. A pergunta que fica é: cadê o pai dessas crianças? Pois bem, estamos todos abandonados nesse momento. Mulheres sem emprego, pais omissos quanto aos seus compromissos. E a conta das mulheres só aumenta. Para sua filha e para você, que é quem a apoia no cuidado da família.

Eu tendo a ser otimista, mas na data de hoje, não consigo. Foram muitas perdas no último ano. Crianças sem escola, recessão econômica, ausência dos serviços públicos de saúde. As mulheres mais impactadas são as que não têm apoio dos pais das crianças, as que cuidam de filhos com necessidades especiais, as que vivem nas periferias.

Bianca Martins

Psicanalista

"As mulheres mais impactadas são as que não têm apoio dos pais das crianças, as que cuidam de filhos com necessidades especiais, as que vivem nas periferias"

O cuidar, esse elemento típico do feminino, cobra sua conta mais alta nesse 8 de março. E a pergunta que me faço todos os dias é quem está cuidando e garantindo que os direitos já conquistados das mulheres sejam mantidos e que novos direitos sejam adquiridos?

Estamos todas nós, mulheres, esgotadas, esse é o sentimento que escuto dia a dia no exercício do meu ofício. Por isso, não temos motivos para comemorar, mas não nos faltam motivos para fazer com que nossas vozes sejam ouvidas. Pois só quando falamos, compartilhamos nossas dificuldades, nossas necessidades, podemos, sim, fazer com que nossas vozes sejam ouvidas.

O que eu desejo a todas as mulheres no Brasil nesse dia 08 de março é que mesmo cansadas, fracas e desesperançadas, encontremos algum jeito de manter nossas vozes ecoando.

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.