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Brasil

Um pouco como antes: o que escrevi lá pelos idos de 2015

Entre muitas coisas que aprendi com Beckett é que cada vez que relemos o mesmo texto ele já é outro e se adapta ao que a gente está a experimentar

Publicado em 06 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

06 jul 2021 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

ISS, a Estação Espacial Internacional
Aqui embaixo, tudo está desmoronando. Enquanto isso, a ISS continua a girar aí em cima de nossas cabeças Crédito: Roscosmos/Nasa
Tem quem goste, tem quem não goste de Beckett. Seja como for, é um dos mais importantes escritores do século XX. Entre muitas coisas que aprendi com Beckett é que cada vez que relemos o mesmo texto ele já é outro e se adapta ao que a gente está a experimentar. Comprovem. Eis o que escrevi em um certo mês de julho, lá pelos idos de 2015:
Diante do festival de enganos, embromações e mentiras que assola o país, ninguém - nem mesmo aqueles mais recalcitrantes partidários de fulano ou beltrano, nem mesmo os militantes políticos mais ensandecidos, nem mesmo os possuídos por paixões cegas, surdas (embora não mudas) -, ninguém deixa de sentir aquelas incômodas espetadelas de sã consciência, que doem no entendimento e no bolso. Você se dá conta de que está vivendo como personagem de um extenuante filme de horror.
Eu tenho uma amiga que acredita piamente que nem tudo está perdido, que as promessas eram à vera e que algo de bom ainda há de cair do céu borrascoso assim como o dadivoso maná no deserto. Entendo essa boa alma! Mas, por mais confortável que seja, não se pode viver na terra do faz-de-conta para sempre, como um Peter Pan ou como uma Sininho, quando tudo em torno está caindo aos pedaços.
Alguns dirão que sou uma pobre escriba que não sabe de nada. E que o melhor que eu faria era me manter no território estrito da Mãe Literatura. Ou que comentasse coisas mais promissoras para a humanidade. Como, por exemplo, a chegada de três astronautas à ISS, a Estação Espacial Internacional, a bordo de uma nave Soyuz.
Quem não sabe que a ISS é um laboratório espacial, resultado de muito dinheiro empregado por cinco agências espaciais, de países diversos? O Brasil estava entre os participantes. No entanto, saiu do projeto, sem ter contribuído nem mesmo com um só parafuso. Antes disso, o nosso primeiro e único astronauta, foi até a estação. Conseguiu comprovar que feijões germinam no espaço. E disse uma frase: “A Terra não é azul, e sim colorida”. Foi essa toda a contribuição do Brasil.
Aqui embaixo, tudo está desmoronando. Enquanto isso, a ISS continua a girar aí em cima de nossas cabeças, do Oeste para o Leste, ao contrário do Sol e da Lua e demais corpos celestes. Viaja a uma velocidade de 27.700 km/h e faz, em média, 16 órbitas por dia. Sua órbita é baixa, cerca de 350 km. Ela brilha. É possível avistá-la da Terra a olho nu. E está a cair eternamente por causa da curva ocasionada pela força centrípeta a que está sujeita. Um dia, vai despencar, de verdade.
O que virá depois? Pergunte ao pó, diria John Fante. Ou melhor, nem pergunte. Nem ao pó, nem ao vento, nem aos astronautas da ISS. Pois nem eles saberão responder.

Bernadette Lyra

E escritora de ficcao e professora de cinema. Escreve as tercas-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporaneos

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