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Pandemia

A gente vai levando, com nó no peito, com toda a lama

Mas às vezes a revolta é grande, olhar as estatísticas e pensar em quantas das 520 mil mortes poderiam ter sido evitadas se a vida valesse mais do que um mísero dólar

Publicado em 04 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 jul 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Menino olhando pela janela usando máscara
Mas às vezes a revolta é grande, ver a falsidade em rede nacional, a ausência completa de afeto e solidariedade Crédito: Freepik
A gente ainda vai levando, dez anos depois, exatamente como no outro texto que escrevi e o Milson leu em público, lindamente, sem perder o fôlego apesar das frases longas que eu insisto em escrever.
A gente ainda vai levando, exatamente como na canção, com toda a fama, toda a Brahma, toda a cama, toda a lama. Mas às vezes a revolta é grande, olhar as estatísticas e pensar em quantas das 520 mil mortes poderiam ter sido evitadas se a vida valesse mais do que um mísero dólar.
Como no outro texto, dez anos antes, a gente ainda vai levando. Mas às vezes a revolta é grande, ver a falsidade em rede nacional, a ausência completa de afeto e solidariedade, um jogo de cínicos e perversos alheios à dor de meio milhão de perdas e todas as suas consequências.
É claro que ainda temos a música, a fé na festa, os amores verdadeiros, o alento de certas memórias, os diálogos que nos tornam maiores e melhores do que éramos antes. Temos as pequenas alegrias da vida adulta e a magia de ver gente os nossos sendo vacinados, mesmo que a conta-gotas. Temos os elos que nem o tempo nem a ausência desfazem.
Ufa.
Apesar da pandemia, apesar da política que estimula o sarcasmo e o extermínio no lugar do cuidado, apesar de tudo, há que se reconhecer o privilégio que atualmente significa respirar, estar vivo, ter trabalho, casa e comida. Há que se reconhecer o privilégio, apesar das ausências, das estatísticas sentadas no sofá da sala, bem do nosso lado, dos que se foram, das durezas, de tudo.
Deve ser por isso que a gente ainda vai levando, exatamente como na canção, com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema. Mas às vezes a saudade é grande, um amor que se foi, o isolamento que não acaba, um amigo que não veio, pai, tio, amigo, irmão, vizinho ou bicho de estimação que passaram desta para outra e vocês sabem como dói.
Ainda assim, a gente ainda vai levando, como na canção, com o nada feito, com a sala escura, um nó no peito, a cara dura.
A gente vai levando, com o todavia, o todo dia, o todo ia, todo não ia, todo rock, todo pop, todo estoque e todo Ibope, exatamente como na canção e no texto de dez anos atrás, que o Milson leu em público, lindamente, sem perder o fôlego apesar das frases longas que eu insisto em escrever.
A gente ainda vai levando, como na canção: sanha, façanha, picanha, campanha e manha, estima, esgrima, clima, tudo em cima, ou quase. Porque às vezes a idade pesa, os músculos incomodam, a coluna não endireita, o corte não cicatriza, tinha uma quina no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma quina.
Às vezes a dor é grande, e haja mucato de isometepteno, dipirona sódica e cafeína anidra para tanta agonia. Haja diálogo pra tanta pergunta. Haja o passar dos dias pra tanta ferida. Haja paciência pra tanto desencontro. Mesmo assim, a gente ainda vai levando, com toda cédula, toda célula, súmula e sílaba, uma letra depois da outra, apesar do que pesa.
Exatamente como na canção e no texto de dez anos atrás, que o Milson leu em público, lindamente, sem perder o fôlego apesar das frases longas que eu insisto em escrever, a gente ainda vai levando.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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