Essa inquietude que estamos sentindo também tem o nome de medo. Um tipo de medo confuso. Abrange dezenas de milhares de anos de História. Nossa mente mais primitiva intui que alguma coisa de muito ruim está acontecendo. Mas não temos como lutar contra essa ameaça.
A curva do medo é alimentada por notícias tristes. Sustenta-se na clausura em que o isolamento social nos meteu e na intensidade com que frequentamos as redes virtuais. Circunscritos a um espaço reduzido de circulação, estamos reféns da internet, que nos diz não só o que fez, o que faz, o que deseja fazer cada vivente, mas também, dia a dia, nos apresenta à morte de alguém. O tempo e o espaço que se constroem nesta pandemia nos tornam mais sensíveis a um memento mori, nos deixam expostos às mensagens da finitude da vida.
Falar sobre a finitude da vida sempre espanta as pessoas, que preferem esquecer o assunto. Esse “esquecimento” equivale a protelar os lances com a Indesejada, que sabemos que, algum dia, virá. Como no jogo de xadrez que, em O sétimo selo (1957), de Ingmar Bergman, o cavaleiro medieval Antonius Block propõe à Morte que o vem buscar, na esperança de vencê-la para continuar vivendo.
Quem viu o filme sabe que tudo nele é destinado a lembrar a presença da mortalidade humana. Começa com a abertura, que tem a leitura de um trecho do Livro de Apocalipse e Dies Irae, na trilha sonora. O enredo se passa durante a ‘Peste Negra’, que arrasou a Europa, de 1348 a 1352, quando pessoas e comunidades inteiras desapareciam sem que nenhum conhecimento terapêutico, nenhum medicamento, nada pudesse dar conta do que causava a doença ou que curasse quem a contraía. A morte aparece como uma presença incontornável que o cavaleiro pode ver e tocar, uma persona com quem ele dialoga e de quem tenta ganhar, mesmo sabendo que é impossível.
Em um cenário de devastação e horror, Bergman constrói uma similaridade da Idade Média com a Idade Contemporânea. Na cinematografia mundial, O sétimo selo é o que mais perto existe do drama de hoje. Vivemos a letalidade de um vírus desconhecido que impõe o desespero e a incapacidade de lidar com um mal capaz de destroçar vidas, além de transformar costumes, hábitos, conhecimentos, enfim, tudo aquilo que a humanidade julgava ter solidamente constituído.
Tal o cavaleiro Block, cada criatura se sente humana, demasiadamente humana, quando é tomada pela inquietude provocada pelo medo da proximidade da morte. Talvez, então, o único remédio seja buscar refúgio no amor, na alegria e na arte.