O Prêmio Nobel de Literatura de cada ano é louvado, atacado e tudo o mais que dá no gosto ou no desgosto das gentes. Em 2025, a querela literária do contra e do a favor acendeu seu pavio em torno do húngaro, László Krasznahorkai, romancista e roteirista, autor de livros estranhos, em que a humanidade é mostrada com um viés sombrio.
Tem quem diga que se trata de um escritor de distopias, ligado à genealogia de criação pós-moderna. Não deixa de ser um rótulo que cai bem à atmosfera que Jean François Lyotard classifica de “morte das grandes narrativas culturais, sociais e políticas”. Na literatura pós-moderna, como em todas as artes, a distopia serve como sátira ou como alerta para a melancolia e o cansaço causados pelo excesso de tecnologia e pelo extrapolamento das convenções sociais.
Ninguém que se interesse pela arte ignora que, na chamada pós-modernidade, objetos artísticos são feitos de misturas de formas, de fragmentos, de experimentação e de outras características que diferem das que transpiravam da modernidade e foram se desmoronando, talvez pelo excesso de certezas e promessas não concretizadas. Nesse ambiente de crise, se inclui uma literatura que passa a registrar, sobretudo, o desmantelamento das utopias culturais e políticas. A arte literária se enche de niilismo, de situações distópicas, de sentimentos melancólicos e de desencanto com os atos humanos. Sem falar de uma certa ironia ou uma espécie de resignação quase indiferente, diante do frenesi da fragmentação dos sistemas sociais, que muitos classificam como “o horror apocalítico”.
Pois foi justamente a reafirmação do poder da arte, usada como denúncia e enfrentamento desse horror apocalíptico que devasta a sociedade contemporânea, que outorgou o Prêmio Nobel de Literatura a Krasznahorkai, segundo o Comitê encarregado de selecionar, indicar candidatos, escolher o vencedor. Desta vez, o escritor laureado é alguém que tem laços com a literatura sombria, estranha, inquietante e profundamente humana, de Samuel Beckett, Franz Kafka, Robert Walser. Mas quem quiser lê-lo por 2 aqui só terá Sátántangó, único livro dele traduzido para o português no Brasil, transformado em filme pelo cineasta húngaro Béla Tarr, em 1994.
Uma vez escrevi que “escrever é um ato político”. Diante da premiação do Nobel de Literatura/2025, considero uma declaração acertada. Quem escreve de modo consciente, e não por diletantismo ou vaidade, sabe bem que produzir literariamente sempre foi uma tomada de posição política, uma partilha da busca de conhecimentos e do entendimento das realidades.