Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

Preconceito, etarismo e literatura, tudo ao mesmo tempo

Não sei (e não quero saber) de quem é a autoria de tal comentário bisonho. Mas não há dúvidas que o monstro do etarismo arreganha os dentes e pula de dentro da palavra “veia”, usada em uma tentativa de ridicularizar, com essa corruptela de “velha”

Públicado em 

09 set 2025 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Nestes dias de tanta turbulência, uma entrevista despencou como um míssil sobre a topografia literária brasileira. Aurora Bernardini declarou ao Caderno Ilustríssima, do jornal A Folha de São Paulo, que a literatura contemporânea ficou mais pobre ao privilegiar o conteúdo e esquecer a forma. Para completar, citou "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, e as obras de Annie Ernaux e Elena Ferrante como sendo “best-sellers” conteudísticos e não literatura, porque falta um “estilo marcante” ao autor e às duas autoras.
Como estamos em tempos de divisões acirradas, sem apaziguantes diálogos, não me espanta o tanto de gente que, de um lado, se aprestou a atacar a opinião da ilustre entrevistada; e de gente que saiu em defesa dela, de outro. Mas o que me deixou pasma nessa imensa maré de disse-me-disse foi mesmo o uso de palavras injuriosas que, em redes sociais bem frequentadas, se referiam diretamente à pessoa física de Aurora.
Entre tantos impropérios produzidos com inquestionável rancor (alguns com indisfarçável despeito) lá estava o epiteto de “veia”, aplicado por alguém que, por certo, ignorou o restante da entrevista, em que se desdobravam as explicações, a meu ver, muito bem aplicadas às obras citadas, em termos de conhecimento linguístico, de respeito, de espírito crítico e sem partidarismo.
Não sei (e não quero saber) de quem é a autoria de tal comentário bisonho. Mas não há dúvidas que o monstro do etarismo arreganha os dentes e pula de dentro da palavra “veia”, usada em uma tentativa de ridicularizar, com essa corruptela de “velha”, os incontáveis méritos da respeitadíssima professora, escritora e tradutora que, por anos seguidos, dedicou sua existência, sua profissão e seus estudos à causa da escrita neste país.
O etarismo, ou seja, o preconceito contra quem já está pra lá dos belos dias da juventude e já está dobrando (ou quase) o Cabo da Boa Esperança, tal como os navegantes da época dos descobrimentos, o etarismo, repito, é um fantasma idiota, ignóbil e ignorante, pois ninguém escapa à velhice, a não ser quem se despede da vida e parte deste planeta. Que, aliás, está envelhecendo também.
Vocês sabem que é bem difícil para certas criaturas admitir que experiência e conhecimento podem ser expressos sem “parti pris”, sem ódio, sem mágoa e sem preconceito. E é difícil também concordar que serenidade e bom senso são dons que independem de anos vividos. O mais triste, porém, é ver que, por medo, por arrogância, por ignorância ou por ambição, estamos perdendo a capacidade de aceitar que a liberdade de expressão não é mérito de gênero nem é questão de idade.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Coronel Caus se filia ao Podemos e será pré-candidato a deputado estadual
Imagem de destaque
Saiba os primeiros atos de Ricardo Ferraço como governador do ES
Imagem de destaque
Cris Samorini toma posse como prefeita de Vitória na segunda (6)

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados