As mídias sociais vêm exibindo fotos e vídeos em que se veem cães sendo resgatados de situações deprimentes. O mais comum é mostrar cadelas agoniadas procurando pessoas para socorrer seus filhotes nascidos ao léu. Nas imagens, sempre há alguém que se apieda do desespero da mamãe de quatro patas e a acompanha.
E lá estão eles, os peludinhos, amontoados em buracos na mata, rodovias, becos obscuros e outros tantos. É difícil encontrar quem tenha coração de pedra e não se comova diante daquelas criaturinhas que aparecem agitando os rabinhos quando são apresentados a olhares de humanos atônitos, desde logo dispostos a salvar do abandono aqueles fofos e inocentes rebentos.
É uma comoção justa. Pena que não se estenda aos cães sem dono que vivem nas ruas, escadarias e ladeiras de nossa cidade, que vagueiam debaixo do sol e da chuva, da noite e do vento.
O Centro de Vitória está repleto de todos os tipos de “canis lupus familiari”. Uns foram abandonados por seus donos; outros nasceram por ali mesmo, e por ali mesmo ficaram. Uns são solitários e discretos, aparecem e desaparecem nas sombras como fantasmas; outros se organizam em matilhas, seguem um líder, escorraçam com rosnados e mordidas os que não sejam os costumeiros colegas do grupo.
Mas todos conhecem e visitam os pontos em que é depositado o lixo de casas e apartamentos, na esperança de quem sabe, aqui ou acolá, apareçam os restos de um frango assado consumido aos domingos ou pedaços mofados de torta de carne.
Alguns são meus velhos conhecidos: o cão preto que às vezes manca e fielmente segue um desses “sem-teto” que todas as noites vem dormir com ele no alpendre do Convento de São Francisco; os três cães que vivem sozinhos na apertada varanda de uma casa da esquina onde foram deixados como vigias; a que penso ser uma cadelinha solitária que vive enclausurada nas vizinhanças e se manifesta com repetidos uivos e lamentos em adiantadas horas noturnas. Sem falar nas saudades que sinto daquele cachorro que habitava o telhado de um sobrado aqui perto e um belo dia sumiu, ninguém sabe para onde o levaram depois que seu tutor morreu.
Nas madrugadas desta Cidade Alta, é comum que se escutem latidos vindos dos morros em redor, logo respondidos por outros latidos. Parece que todos os cães de rua se conhecem, se comunicam. E, ao contrário de cachorros domésticos tratados com ração especial, banhos e tosas, cuidados de beleza, roupinhas e outros mimos, esses renegados caninos carregam consigo uma liberdade animal vadia, só deles.