Talvez não seja absurdo dizer que não sabemos muito bem em que mundo estamos vivendo. Quando se pensa sobre a internet, a coisa se complica. A internet paira como uma nuvem sobre as mentes humanas. No virtual, tudo flutua em possibilidades: conversar com as pessoas distantes; provar delícias gastronômicas com os olhos; usufruir de agrados e de xingamentos; fazer outras muitas peripécias, bondades e maldades que, cara a cara, não seriam feitas.
A internet é valiosa, sobretudo em certas situações. Como as de hoje, em que a pandemia se deita sobre a carne e os ossos das criaturas fragilizadas pelo isolamento, ávidas por alguma conciliação com a vida desfrutada quando era fácil sair de casa, ir até a esquina, visitar os parentes, encontrar amizades, beijar e abraçar, fazer essas tarefas comuns pelo afora das noites e dos dias. É então que os dispositivos digitais aparecem como anjos relacionais, que nos põem perto de outras pessoas, tocam as trombetas da comunicação, nos recheiam de informações, nos confortam com o entretenimento.
O caso é que, de repente, viramos escravos dos algoritmos. “Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba", escreve o filósofo coreano Byung Chul Han.
Sabe aquela vontadezinha que bate quando você se depara com um aplicativo de jogo que lhe promete a chance de se ver como alguém diferente? Em um passe de mágica, seu rosto envelhece. Ou uma singela mulher vira um homem charmoso, ou um homem comum vira uma mulher atraente. Tudo sem precisar se submeter a custosas operações plásticas nem gastar quilos de maquiagem.
Parece pura diversão. Mas fato é que, com esses efeitos visuais, abre-se um buraco negro que suga a possibilidade de experiência existencial da vida de alguém no espaço e no tempo. Basta dar alguns cliques e surge uma imagem que apaga toda a perspectiva da escolha consciente que você poderia fazer sobre a aceitação de uma identidade de sexo e de gênero ou do envelhecer. E, além do mais, você vai entregando suas particularidades aos donos dos dados e sabe-se lá o que é feito com eles.
Dessa forma, nada do que foi será, ou é como antes. Nem mesmo o entretenimento. Que, aliás, não pode mais ser considerado apenas como aquilo que se faz nas horas de lazer. Transformou-se em um outro modo de ser. Diluiu-se entre as fronteiras do real e da ficção. O que não o livra de tornar-se uma mercadoria de alto valor neste mundo de rumos incertos.