Talvez porque o filme “Ainda estou aqui” está sob os holofotes, a esperança do Oscar é assunto da mídia e Fernanda Torres agita os corações, vem ocorrendo um fenômeno curioso: pessoas têm me perguntado: “Por que você, uma escritora, escolheu pesquisar o Cinema?”. Para responder, não vou tentar explicar o inexplicável ou como uma coisa não oblitera a outra. Vou apenas contar uma história.
Há muitos anos, em Conceição da Barra, meu avô tinha uma sala de cinema. Não era uma sala com poltronas estofadas vermelhas, uma tela gigante, um super projetor, uma aparelhagem de som de estrondar os ouvidos. Era um barracão com bancos de madeira e chão de cimento. O projetor era uma geringonça estranha abastecido com um líquido misterioso. E muitos filmes exibidos ainda eram do tempo do cinema mudo.
Os filmes chegavam em navios. Mas meu avô tinha seu próprio arsenal. Entre os títulos da coleção dele estava "Scaramouche", de Rex Ingram (1923), em preto e branco, com aventuras espetaculares de um espadachim. Quando o vento sul baixava e encrespava as ondas, os navios não entravam na barra do Cricaré e os filmes encomendados não conseguiam chegar até o porto. Meu avô, então, apresentava aquela mesma película de capa e espada. Mudava, porém, o título para “Máscaras brancas”, com direito a outras apresentações, desta vez como “Máscaras negras”. O público afluía para ver o “novo” velho filme, com o mesmo entusiasmo de antes, como se nunca a ele houvesse assistido.
Nessa época, eu era uma criança. Ainda era carregada no colo para assistir aos filmes no cinema de meu avô. Depois, no tempo em que eu era uma jovem estudante interna no colégio do Carmo, fazia questão de ser bem-comportada para ter notas altas e poder ter direito à saída aos domingos. Meu desejo mais precioso era ir à matinê no Glória. Esperava com ansiedade que o filme começasse e os astros românticos, as estrelas dos musicais, os caubóis de bang bang surgissem na tela. Naquelas tardes, muito aprendi sobre o encantamento da magia de histórias contadas com imagens, sons e movimento.
E foi assim que o Cinema entrou para sempre em minha vida. Cinema é um sonho que sonhamos acordados. É como Literatura: um lugar onde a imaginação materializa vidas e histórias que bem poderiam ser as nossas. E, se não o são, essas histórias e vidas a que assistimos na tela e lemos nos livros espelham fragmentos de medo e coragem, de alegria e tristeza, de horror e maravilha, de todos esses fios amargos e doces que sustentam a nossa condição de sermos criaturas humanas, de fazermos parte disso que, bem ou mal, se chama humanidade.