Na semana passada, resolvi caminhar pelo Centro. Andei sem destino. Talvez estivesse em busca de meios expressivos para dizer o quanto de lembranças esse pedaço da cidade me traz. Subi e desci escadarias. Passei por ruas e becos que são como rios no traçado do corpo da História. Revisitei lugares onde a cidade estabeleceu sua própria espessura, camada por camada, desde o passado.
Comecei por atravessar o Viaduto Caramuru, todo luminoso e imponente, agora livre de estacionamento e passagem de carros, depois de sua reforma e ressurreição. Segui por uma ladeira, passei pelo Palácio, cheguei ao lugar onde Vitória começou há séculos, na forma de um quadrado de pequenas casas de taipa, cobertas de palha, construídas à beira da pequena capela de Santa Luzia. É claro que nenhuma dessas moradas existe mais. Seria pedir muito aos séculos e séculos de modificações. Mas a capelinha da santa ainda está lá, em seu ninho de pedra.
Muitas centenas de anos depois, ali se ergueu o belo conjunto azul formado pela Loja Maçônica e pelo colégio São Vicente de Paula. Hoje, a Loja Maçônica está desativada; o colégio virou habitação coletiva, com paredes descascadas e roupas dependuradas às janelas. Pessoas discutem e gritam, debruçadas nas grades das estreitas varandas, por onde, outrora, crianças e adolescentes passavam rumo às salas de aula. Casas fechadas e calçadas repletas de mendigos completam a paisagem, não deixando nem rastro do perfume de dias que já foram promissores naquela região.
O que vi naquela andança nem sempre me pareceu bonito. Sobretudo aqueles prédios abandonados que se erguem eriçados por todo os cantos. Já foram úteis, já serviram a multidões. Foram hotéis, repartições públicas, locais de reunião comunitária, clubes recreativos e cobriram muitas outras atividades urbanas. Agora, são construções que se erguem como blocos sombrios e pesados de paredes encardidas, escancarando janelas em pedaços, abertas como olhos esbugalhados de monstros naquelas salas vazias e varridas apenas pelo rumor do vaivém de fantasmas.
Não sei se isso acontece a vocês, mas, para mim, essa espécie de andança é como uma destruição de fronteiras. É um traço de união entre a sensação daquilo que está sendo visto e o pensamento. E eu penso, sinceramente, que vivemos em um lugar privilegiado, uma Ilha do lado oriental do Brasil, cercada de mar, pedra e vento. Sobre esta Ilha, se sustenta Vitória, nossa capital de muitos encantamentos. Mas o que vi em abandono no Centro foi como um tiro certeiro de tristeza na minha capixaba euforia.