Nas redes sociais ainda reverberam comentários a respeito da entrevista com a professora da USP, Aurora Bernardini, que falou sobre o descuido com a forma e a banalidade dos conteúdos em textos literários recheados de histórias do eu ou de temas da cultura woke (modalidade cultural nascida nos Estados Unidos, voltada para justiça racial e política social, atualmente em declínio, não por falta de méritos, mas por culpa de seus exageros).
Alguns dos escritores citados como adeptos do conteudismo se sentiram atingidos, revidaram com comentários que julgavam irônicos; alguns fãs mais exaltados desses escritores não se cansam de execrar a professora. Pegando carona na questão, porém sem tomar partido nessa querela inútil que nada acrescenta ao conhecimento, pensei que seria legal dividir com vocês alguma coisa que aprendi sobre a forma na literatura.
Vocês sabem que a literatura só dispõe de palavras e de tonalidades de voz (na oralidade) e de palavras e de sinais gráficos (na escrita), para exibir seu corpo material e traduzir o espírito de seus sentidos. Hans Ulrich Gumbrecht, no livro “Corpo e forma”, ensina que a forma é a linha que circunscreve e une essas duas manifestações expressivas, contemplando a referência interna e externa a um só tempo, e de quanto ela importa à escrita, pois sustenta o corpo e o espírito de um texto qualquer.
Mas ninguém ignora a impossibilidade que a linguagem tem para formatar exatamente aquilo que um texto literário quer expressar. E muitos são os poetas, contistas e romancistas que assim o atestam. Carlos Drummond de Andrade resumiu isso no belo poema “O Lutador”: “Lutar com palavras é a coisa mais vã, no entanto lutamos mal rompe a manhã”. E ele próprio faz atestado da importância da forma nessa luta, ao explorar a metalinguagem para tentar passar sua intenção pessoal e poética.
Assim talvez o propósito da professora entrevistada não tenha sido ater-se a um formalismo ou ao elitismo crítico, como querem entender alguns “wokeistas” mais fervorosos, mas sim apontar para a importância da linha que circunscreve um texto que se diz “literário” (pois há outros tipos de textos), harmonizando seu aspecto formal ao desejo de expressar um conteúdo, por parte de quem o escreve.
Quem pratica o ofício literário por vocação e convicção sabe que não basta escrever versos, narrar fatos, enumerar recordações ou descrever incidentes. É preciso ter a perspicácia de entender como substâncias da memória e da imaginação se articulam em formas escritas, ou seja, é preciso recorrer a estratégias da forma para que a magia da literatura aconteça.