Imagine que você está se preparando para ler. Você se acomoda em seu canto predileto, se ajeita na poltrona, deixa que a mente se acostume ao silêncio, abre um livro e mergulha no mundo que as palavras vão construindo para seu gosto e prazer. Daqui a algum tempo, talvez esta seja uma cena improvável, um tipo de ritual ameaçado pelo uso de tablets, celulares e telas.
Cada vez mais, as pessoas leem “passando os olhos”. Sem falar no alto consumo de imagens, que há quem justifique, ao repetir o provérbio que faz as delícias dos publicitários: “uma imagem vale mais que mil palavras”.
Mas continue a imaginar que está lendo, silenciosamente. Por exemplo, um poema. Você sente que é diferente de quando escuta o mesmo poema declamado pela voz de alguém. Quem já não viveu essa experiência? Pelo menos naquelas datas festivas da escola, quando uma coleguinha se postava diante da turma para recitar quadrinhas que faziam os pais se derreterem de orgulho, sonhando um futuro de glórias sobre os palcos para sua pimpolha.
À parte pimpolhas e seus pais orgulhosos, a declamação é uma arte. Quem quer que a domine e sabe dizer versos, ao dizê-los, estabelece uma conexão corporal e espiritual com alguém. O poema se joga na voz, ganha tons e semitons. A leitura se transforma em performance. Os leitores se transformam em espectadores. O que não impede que a leitura solitária e silenciosa seja uma performance íntima, em que o corpo de quem lê reage de algum modo à materialidade das formas literárias de que um poeta se vale.
A força corporal da performance já era conhecida desde a Antiguidade. E foi exercitada ao máximo pelos trovadores da Idade Média, que iam de castelo em castelo recitando seus versos ao som do alaúde. E se, no mundo de hoje, a internet trouxe mudanças às práticas de leitura, com o excessivo uso de telinhas, telonas e telas, trouxe mudanças nas performances também. Mais e mais performances são feitas, difundidas, vistas, ouvidas e compartilhadas, com o luxuoso auxílio de vídeos e outros produtos audiovisuais. Porém os resultados não são todos iguais.
Recentemente, assisti a alguns vídeos em que os próprios autores diziam seus poemas. Alguns tinham recursos técnicos de gestos e de voz, eram cheios de charme; outros pareciam encabulados, sem traquejo, um tanto sem jeito. O caso é que, por mais que escreva bons poemas, nem todo poeta tem técnica, habilidade e conhecimento para fazer performances diante da câmera. É assim no mundo virtual. Tal como na vida. Nada nem ninguém é perfeito, afinal.