Ainda em abril, no início da pandemia do novo coronavírus aqui no Brasil, a coluna trouxe uma análise dizendo que 2020 poderia ser o pior ano para a economia capixaba. Economistas e especialistas na área projetavam efeitos drásticos sobre o nosso PIB e uma queda que poderia chegar a dois dígitos.
Passados cinco meses dessa publicação, analistas continuam a afirmar que os reflexos da doença no Estado, no país e no mundo são devastadores e farão com que economias por todo o globo encolham neste ano e continuem a sofrer consequências em 2021. Mas a perspectiva para o PIB do Espírito Santo é um pouco menos pessimista e as novas projeções não colocam 2020 como o ano do fundo do poço.
Para quem acompanha esse assunto de perto, 2009 - quando as consequências da crise americana do subprime rebateram em cheio no Estado - continuará a ser o período em que o desempenho do PIB capixaba figura como o pior da história, de -6,9%. Para o atual momento, é esperada uma retração de algo entre 5% e 6%.
O curioso é que há praticamente uma unanimidade entre analistas de que esta crise que vivemos é mais ampla e severa do que a registrada pouco mais de uma década atrás. Como disse na última semana o diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Daniel Cerqueira, a crise do novo coronavírus é mais profunda.
"Do ponto de vista capixaba, que tem uma grande abertura para o comércio exterior, a atual crise é similar à do subprime. Mas a da pandemia é muito mais profunda. A crise americana começou no mercado financeiro/imobiliário, enquanto a crise da Covid é generalizada. Por causa dela, as pessoas não podiam sequer sair às ruas. Sem dúvidas, é muito pior"
O que faz então a atual crise ser a pior, mas, ao mesmo tempo, não tender a apresentar os piores números? A relação comercial do Estado com diversos países da Ásia, Europa e América do Norte é uma das respostas para isso.
O mesmo mercado internacional que derrubou diversos indicadores capixabas, principalmente no segundo trimestre de 2020, quando a economia encolheu 5,9%, tende a ser um dos propulsores para a esperada retomada em V - que é quando após uma queda acentuada na economia, a recuperação acontece de forma rápida. Aliás, esse movimento aconteceu de 2009 para 2010, conforme é possível visualizar no gráfico abaixo.
Alguns números ligados às exportações já dão indícios que lá fora os países estão voltando a consumir nossos produtos. Em agosto, por exemplo, houve alta de 15,33% na comparação com o mês imediatamente anterior, conforme dados do IJSN.
Se os parceiros comerciais do Estado não sofrerem nenhum revés em relação ao controle da pandemia, como uma segunda onda da doença e a necessidade de voltar a adotar medidas restritivas de circulação, podemos sair na frente de diversos outros entes da federação que não têm a mesma característica de abertura econômica.
Também conta ponto a favor do Espírito Santo a organização institucional e fiscal que temos por aqui. Iniciativas públicas e privadas têm atuado em conjunto para permitir que o Estado saia da pandemia bem estruturado e com um leque de projetos e novos negócios que contribuam para a geração de renda e emprego.
Outro fator que não pode ser desprezado é a injeção de recursos na economia por meio do auxílio emergencial. Ainda que o governo federal venha atuando de forma desastrosa na liderança dessa crise e no combate à doença, é preciso reconhecer que o dinheiro que ele fez chegar a centenas de milhares de capixabas também fará diferença para que o tombo da economia local não seja recorde.
Portanto, há uma conjuntura que coloca o Espírito Santo em um caminho rumo à retomada e o afasta daqueles números mais pessimistas de cinco meses atrás. Se esta será a previsão correta, só o tempo dirá. Afinal, como brincamos entre profissionais do meio econômico, as projeções foram feitas para errar, mas, nem por isso, devem deixar de ser feitas.