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É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras

Sofrimentos objetivos e subjetivos causados pela pandemia

Milhões de pessoas sofreram e sofrem, perderam e perdem, objetivamente e subjetivamente, com a Covid-19

Publicado em 06/05/2021 às 02h00
Menino olhando pela janela usando máscara
Também perdem subjetivamente em maior ou menor grau jovens impossibilitados de desfrutarem plenamente anos de juventude e de vida adulta. Crédito: Freepik

Objetivamente sofreram e sofrem milhões de pessoas que foram acometidas pela Covid-19. Muitas partiram sem que os cuidados médico-hospitalares conseguissem salvá-las. Muitas outras tiveram o socorro do que de melhor o atendimento de saúde pôde oferecer e agora estão em fases de recuperação de comprometimentos cujas extensões ainda são desconhecidas.

E um número crescente continua sendo acometido pelo vírus e convive com todas as incertezas possíveis com relação às possibilidades de superarem a infecção. O sofrimento de cada uma dessas pessoas é acompanhado pela angústia de familiares e amigos, na maioria das vezes impossibilitados de prestar assistência ou solidariedade com a presença física.

Objetivamente também sofrem milhões de pessoas que perdem emprego e trabalho em função do agravamento da deteriorada situação econômica do país no período anterior ao surgimento da pandemia e que agora é agravada pelas necessárias circunstâncias de afastamento físico. Alguns perderam empregos que exigem formação prolongada e experiência acumulada; mas também perderam trabalho pessoas no chamado mercado informal e que geralmente sobrevivem a partir de atividades como a de lavadores/guardadores de carro. Também faltam carros para lavar/guardar.

Subjetivamente perdem todas as pessoas impossibilitadas de se despedir de seus mortos ou de prestar solidariedade a quem chora a perda de entes queridos. Também perdem aquelas que deixam de cuidar de seus idosos ou de suas crianças porque delas precisam se manter distantes.

Perdem aquelas que cancelam celebrações de nascimentos, batizados, casamentos, aniversários. Aquelas que têm seus calendários escolares mudados o que para muitos significa adiar ingresso em cursos; conclusão deles, de defesa de dissertações e de teses.

Também perdem subjetivamente em maior ou menor grau jovens impossibilitados de desfrutarem plenamente anos de juventude e de vida adulta. No outro limite, perdem idosos a possibilidade de concretizarem projetos pensados para quando a aposentadoria chegasse. Para uns e para outros, viagens canceladas, visitas a amigos adiadas. Para os mais velhos a impossibilidade de vivenciar em plenitude a "avoneidade", precisam se dar por satisfeitos com chamadas de vídeo.

E todos que nos enquadramos como perdedores nessas categorias ainda somos privilegiados porque temos como dado o alimento de cada dia. Para parcela da população sequer o básico do dia está assegurado. Para um número crescente de outras, está faltando lixo onde procurar sobras de comida.

Tempos difíceis em que quem pode tem que trabalhar simultaneamente em micro e macro ações. No plano micro, buscar contribuir direta e/ou indiretamente na assistência de um número crescente de moradores de rua e de cada vez mais pessoas que sequer conseguem se sustentar morando em favelas ou bairros pobres. Junto a moradores de rua para atenuar sofrimentos; junto a favelados para evitar que se tornem moradores de rua.

No plano macro, pressionando governantes para que correspondam a seus deveres de operacionalizar políticas públicas que minimamente atentem para o crescente esgarçamento social e para a cada vez mais tênue viabilidade econômica de micro, pequenas e médias empresas.

Quem tem acesso a espaço como este na imprensa, seja como colaborador seja como leitor, encontra-se entre os poucos privilegiados que, além de ter confortos básicos de vida, devem se sentir convocados para pensar e agir em prol de outras condições para tantos que sofrem objetiva e subjetivamente com a pandemia. São tantos e são muitos.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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