Para além do cinismo como são tratados por quem tem poder político, econômico e social os crimes cada vez mais frequentes e maiores contra a humanidade e contra a Mãe Terra assusta a forma acrítica como repercutem notícias veiculadas pela imprensa e nas redes sociais. Alguns exemplos do noticiário nos últimos dez dias.
O primeiro vem da reunião anual do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial ocorrida entre 9 e 15 de outubro, no Marrocos. Nela, o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz estimou em 300 bilhões de dólares o volume de recursos necessários todos os anos para que o os países em desenvolvimento enfrentem as adversidades da emergência climática e façam a necessária transição energética.
Vale acrescentar que, segundo o Instituto Estocolmo para a Paz Mundial, só os Estados Unidos da América gastaram com poderio militar em 2022 praticamente três vezes mais do que essa cifra. Os demais países gastaram outros mais de US$ 1 trilhão com as insanidades das corridas bélicas mundo afora.
E mais, no mesmo 2022, segundo estimativas da consultoria McKinsey, os bancos aumentaram seus lucros em US$ 280 bilhões com as taxas básicas de juros praticadas pelos bancos centrais no mundo. Ou seja, recursos para minorar tragédias humanitárias provocadas pela ganância de alguns poucos existem. Basta gastar menos com armamentos e com juros .
O segundo exemplo vem da União Europeia. Lá, especialistas indicam que praticamente 1/3 das crianças em idade escolar sofrem de obesidade e 25% delas correm o risco de pobreza ou exclusão social. A resposta indicada por especialista para essa crise em países dito desenvolvidos é o básico de uma refeição saudável por dia para todas as crianças.
Saudável com redução substancial de comida processada industrialmente e de alimentos oriundos do agronegócio intensivo em agrotóxicos. Exemplos de como fazer isso podem ser identificados em municípios do Brasil onde práticas de segurança e soberania alimentar baseadas na agroecologia familiar apresentam resultados sociais e econômicos consideráveis.
A terceira notícia que deveria merecer um maior debate público é sobre a decisão da 1ª Turma da Câmara Superior do Conselho de Recursos Fiscais (Carf) referente a empresas multadas por órgão reguladores, ambientais ou de proteção ao consumidor. Essa última instância do órgão entendeu que essas penalidades podem ser abatidas do Imposto de Renda (IRPJ).
Ou seja, o meio ambiente é agredido, o consumidor lesado, as infrações são devidamente multadas por órgão públicos, mas o ônus financeiro dos crimes cometidos pode ser deduzido do imposto de renda devido pelos infratores. Mais do que prejuízos financeiros para o erário, tal entendimento coloca em risco a efetividade de agentes estatais trabalharem em prol do bem comum.
Resumindo, o sistema econômico em vigor e o aparato político-institucional que o sustenta em escala global estão claramente na contramão do que é preciso ser feito para dissipar a sensação de que no passado o futuro era melhor. Sistema econômico que se sustenta pela alocação sem fim de recursos em favor de guerras e se coloca impossibilitado de fazer face a despesas que minimizem os efeitos perversos da emergência climática sobre a vasta maioria da população mundial.
Sistema econômico que há muito retira futuro de crianças do mundo independentemente de onde elas moram, em países pobres ou naqueles identificados como desenvolvidos pelas estatísticas oficiais. Retirada de futuro pelo caminho mais perverso e absolutamente injustificável eticamente: o descuidado para com a alimentação saudável.
Sistema econômico que usa e abusa de interferências diretas no aparato governamental mesmo quando o faz de forma imoral, como é o efetivo descumprimento financeiro com multas por infrações cometidas.
Complicado tentar encaminhar possíveis respostas para questões que envolvem um sistema que há muito falha com relação a questões éticas para com a humanidade e a Mãe Terra. Dificuldades de encaminhamentos que precisam ser enfrentados com processos de sensibilização de agentes políticos e econômicos com relação aos riscos a que todos estão expostos.
Ainda que apenas uma possibilidade, essa sensibilização precisa se dar onde houver espaço para o pensamento e a ação críticas.