A humanidade vive seis crises globais: a da emergência climática; a da perda de biodiversidade; a da contaminação de organismos vivos; a de alimentos; a das águas; e a energética. Todas se relacionam entre si e por isso são sistêmicas.
Evidências para essas crises em escala global vêm sendo apresentadas por diversos estudos científicos e, em maior ou menor grau, acatadas em fóruns internacionais. Ainda assim, o enfrentamento das principais causas evidenciadas para cada uma delas e suas relações sistêmicas vem sendo postergado há algum tempo.
Iniciativas multilaterais ao longo de mais de cinquenta anos para as seis facetas da crise de uma certa forma já perderam legitimidade junto a quem se interessa pelo futuro da humanidade. Isso porque, tanto em nível de governos quanto no de empresas globalizadas, acordos são feitos sem os necessários mecanismos de punição na falta de cumprimento de compromissos assumidos.
A consequência é a sensação de distopia que vai ganhando corpo junto às pessoas, principalmente das mais jovens. Distopia que pode levar ao imobilismo ou que pode ensejar a busca de ações que, pelo menos, sensibilizem mais gente para os riscos que todos corremos.
Sensibilização que pode emergir através de ações que ocorram mais próximo de onde se habita, trabalha, vive. Buscar ações em territórios mais próximos de onde se vive pode ser um primeiro passo no sentido dessa sensibilização.
No caso do enfrentamento da questão da produção e distribuição de alimentos saudáveis para quem os consome e para o meio-ambiente, pode ser um bom começo. A temática da segurança e da soberania alimentar pode ser trabalhada em diversas dimensões no território onde se vive.
Escolas, espaços públicos, terrenos baldios, dentre outros, podem servir para ações comunitárias que busquem sensibilizar pessoas para a questão alimentação saudável em escala global e mobilizá-las para ações em nível local. Exemplos de ações em diversas escalas de territórios estão aí para comprovar as possibilidades.
Hortas comunitárias já funcionando em escolas, praças e terrenos baldios através do trabalho colaborativo entre comunidades, produtores rurais, empresas e governos precisam ganhar mais destaque no noticiário e nas redes sociais. Tanto aquelas que deram certo quanto aquelas que deram errado.
Buscar entender acertos e equívocos cometidos em experiências feitas pode ser uma passo para que no futuro erros deixem de ser repetidos e acertos se apresentem com facetas novas.
Trabalhar hoje a questão milenar da produção e distribuição de alimentos de forma a garantir segurança e soberania nas mais diversas escalas de territórios pode ser um bom exercício para aproximar pessoas na cidade e no campo; saberes ancestrais e científicos. Pode ser um bom exercício de humildade e resiliência diante de uma questão complexa.
Exercício que jamais resolverá toda a complexidade da crise de alimento. Mas pode servir para aproximar pessoas e sensibilizá-las para questões do nosso tempo que toda a retórica do multilateralismo está muito longe de resolver através dos mecanismos de poder existentes.