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Relações internacionais

Novas guerras: entenda os conflitos contemporâneos que afligem o mundo

Venezuela e Haiti são países onde as novas guerras surgem no dia a dia da população, destruindo a forma de vida da como conhecida anteriormente

Públicado em 

06 set 2023 às 00:10
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Nos últimos anos, é notório o aumento no número de refugiados pelo mundo. De acordo com dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 1% da população mundial encontra-se fora do seu país de origem, em busca de proteção e segurança. Diante dessa realidade assustadora, surge a pergunta: são as chamadas "novas guerras" o principal motivo desse aumento na mobilidade humana?
O conceito de novas guerras foi proposto pela cientista política Mary Kaldor. Em seu livro "Novas e Velhas Guerras: Organização em Conflitos do Século XXI", Kaldor introduz o conceito de guerras novas e guerras velhas, estabelecendo uma nova perspectiva para a análise dos conflitos globais e diferenciando-se do famoso teórico militar prussiano Carl von Clausewitz, autor do livro mais famoso sobre a guerra, citado nesta coluna.
Dando continuidade ao tema, vou analisar hoje o conceito de novas guerras que, segundo Kaldor, são diferentes das guerras tradicionais.  Enquanto as guerras do passado eram marcadas por disputas territoriais e confrontos militares entre Estados, as novas guerras envolvem uma complexa rede de atores que transcendem as fronteiras nacionais.
Nas novas guerras, grupos armados não estatais, como milícias e terroristas, são protagonistas. Além disso, esses conflitos se caracterizam pela mistura de motivos étnicos, religiosos, econômicos e políticos, tornando-os ainda mais complexos e difíceis de se resolver. Há de se ter em mente que um aspecto fundamental dessas novas guerras é o alto grau de violência exercido contra a população civil. As táticas de guerra incluem massacres indiscriminados, uso de crianças como soldados, violência sexual e deslocamento forçado. É justamente essa violência extrema que leva muitas pessoas a abandonarem seus lares e buscarem refúgio em outros países.
As novas guerras levam à destruição de infraestruturas básicas, o colapso dos serviços públicos e desestabilização econômica. Esses fatores agravam ainda mais as condições de vida da população local, tornando-se outro incentivo para os indivíduos saírem de seu país de origem em busca de melhores oportunidades em outros países.
O aumento da mobilidade humana, especialmente devido a essas novas guerras e os efeitos delas na sociedade, é um fenômeno preocupante. Aproximadamente 80 milhões de pessoas em todo o mundo foram deslocadas devido a conflitos até o final de 2020, de acordo com a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Esses indivíduos migram porque enfrentam uma série de desafios em seus países, incluindo riscos de segurança, falta de acesso a serviços básicos, falta de perspectivas de emprego e discriminação.
Por isso, é necessário que a comunidade internacional foque seus esforços na prevenção e resolução desses conflitos, bem como na proteção e acolhimento adequados dos refugiados, garantindo-lhes dignidade e oportunidades de reconstruir suas vidas.
Nessa linha de raciocínio, é muito importante dar atenção aos países que recebem esses refugiados, pois também enfrentam desafios significativos. Eles precisam lidar com a demanda por abrigo, comida, assistência médica e educação para essas populações vulneráveis. A falta de recursos para lidar com essa crescente crise humanitária muitas vezes leva a tensões sociais e políticas nos países de acolhimento.
População migrante em Roraima, um dos Estados que recebem refugiados da Venezuela
População migrante em Roraima, um dos Estados que recebem refugiados da Venezuela Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Das crises humanitárias que margeiam as fronteiras brasileiras, as principais nacionalidades que buscam o território brasileiro são de pessoas vindas da Venezuela e do Haiti, países onde as novas guerras surgem no dia a dia da população, destruindo a forma de vida da como conhecida anteriormente, a infraestrutura do país e a possibilidade de uma convivência pacífica entre seus habitantes.
Kaldor enfatiza a importância de repensar as estratégias de resolução desses novos conflitos que estão dentro de um país, mas também transbordam as suas fronteiras nacionais, propondo uma abordagem centrada na proteção e inclusão de populações civis. A autora sugere que a solução para esses conflitos está em uma abordagem mais ampla, que envolve não apenas forças militares, mas também esforços de construção da paz, serviços básicos e atenção às raízes socioeconômicas dos conflitos.
Como se vê, o conceito de guerras novas e guerras velhas de Mary Kaldor representa uma importante contribuição para a compreensão dos conflitos armados contemporâneos. Sua análise crítica e diferenciada permite uma visão mais abrangente dos conflitos atuais, ressaltando a importância de estratégias de proteção e construção da paz e, assim, por via de consequência, a questão da migração forçada seja endereçada de uma forma mais mais abrangente e digna.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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