Mais do que a simples passagem de página do calendário gregoriano, o ano já começado tem significados diferentes para a sociedade brasileira. Às necessárias ações de combate continuado à Covid 19 e seus efeitos na saúde das pessoas e no funcionamento da sociedade e da economia como um todo, some-se em 2022 a importância de ampliar a agenda de debates públicos sobre qual economia/sociedade é desejada.
Ampliação necessária para que a oportunidade democrática do voto popular nas eleições deste ano deixe de ser mera formalidade à qual parcela da população precisa se submeter. A conquista do direito de eleger representantes para ocuparem chefia dos executivos e cadeiras nos parlamentos federal e estaduais precisa ser constantemente legitimada para evitar manobras de forças a quem que a democracia só interessa como mero exercício de consolidar e ampliar privilégios.
Há que se explicitar que existem dois projetos de sociedade distintos por trás dos segmentos que representam interesses ideologicamente identificados com a direita, por um lado, ou com a esquerda, por outro. Direita que mesmo quando reconhece perversidades do sistema político e econômico vigente se contenta com a justificativa de que ‘sempre foi assim’. Esquerda que, no mínimo, adota como princípio que ‘sempre foi assim e precisa mudar em nome de uma sociedade mais justa e fraterna’.
O projeto neoliberal - que representa o ideário de direita desde os que se colocam como centro até os sectários terraplanistas, escravagistas, misóginos – e o de forças progressistas, já foram testados no Brasil nos últimos 40 anos. Seja sob o regime militar no governo Figueiredo, seja nos governos eleitos de Collor, Fernando Henrique Cardoso e Jair Bolsonaro, o princípio de tudo em nome dos interesses do mercado financeiro prevaleceu, em maior ou menor grau, no conteúdos das políticas públicas.
A privataria em nome de uma eficiência ainda por ser provada de grandes empresas crescentemente multinacionais; o equilíbrio fiscal enquanto dogma que só atende ao interesse do capital improdutivo; o descaso para com o setor produtivo nacional, principalmente aquele composto por micro, pequenas e médios empreendimentos no campo e na cidade; a desconsideração para com os passivos sociais, culturais e ambientais que se avolumaram ao longo da história do país são algumas características comuns a esses quatro governos, além do ilegitimamente exercido por Temer.
O projeto progressista – que em maior ou menor grau representa visões de esquerda – posto em prática nos governos Lula e Dilma teve duas características que merecem destaque. Em primeiro lugar, respeito aos princípios estabelecidos na Constituição de 1988. Tudo e o pouco feito na busca de resgate de dívidas sociais históricas; de crescimento centrado em empresas nacionais; e de valorização do papel no Brasil no cenário internacional, nada mais foi do que transformar em políticas públicas o que estava estabelecido na Constituição.
Algumas dessas políticas tiveram reconhecimento internacional mesmo de segmentos conservadores representados pelo Banco Mundial, como foi o caso do programa Bolsa Família. Outras - como o apoio com financiamento, assistência técnica e tecnológica a micro, pequenas e médias empresas na cidade e à agricultura familiar no campo - foram contestadas por quem tem o mercado como um altar a ser venerado acima de tudo e de todos.
Outras ainda – como acordos internacionais que valorizaram o papel do Brasil enquanto potencia econômica e política mundial – foram objeto de reações diversas por parte de forças externas e internas adeptas do alinhamento automático aos interesses estadudinenses. Iniciativas como a dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul); a do G-20; a participação ativa nos debates sobre energia nuclear; o apoio a empresas nacionais no avanço tecnológico e na conquista de mercados internacionais, dentre outras, deram ao Brasil visibilidade internacional e criaram condições para que ele tivesse inserção diferenciada na geopolítica mundial.
Que o processo eleitoral em 2022 seja pautado pelo debate entre projetos de ação. Projetos que tanto a direita quanto a esquerda têm. Explicitá-los para que os eleitores compreendam no que se diferenciam pode ser uma boa agenda para os meios de comunicação e para a academia. O embate de ideias e de resultados efetivos que as mesmas têm quando colocadas em prática é importante na democracia e fundamental neste momento da vida do Brasil e de sua gente.