Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

Em "Amálgama", Roseli Martins mostra o poder de uma cantautora

Disco é um tiro certeiro disparado por uma mulher sem meio-termo, sem "mimimi" nem papas na língua

Publicado em 18/08/2020 às 13h35
A cantora Roseli Martins
A cantora Roseli Martins. Crédito: Roberto Aso/Divulgação

Foi num dia qualquer desses de quarentena e distanciamento social totais que peguei para ouvir o CD "Amálgama" (independente), da cantautora Roseli Martins. Eu nunca havia sabido dela, muito menos ouvido sua voz.

Aliás, minto; quando lhe enviei um e-mail pedindo-lhe que, afinal, me permitisse saber sobre seu trabalho, ela me encaminhou um vasto material e um “presentinho”: “Maringá”, de Jouber de Carvalho. Segundo ela, um amigo nosso em comum “ama”.

Ouvi, é claro, mas não pegou na veia. Com inúmeras mensagens enviadas de lá pra cá, e de cá pra lá, Roseli demonstrava ser uma mulher decidida, disposta a superar os grandes desafios – dentre os quais um problema auditivo sem cura, posto que é degenerativo.

A cada mensagem trocada, aumentava minha vontade de ouvi-la. Enviei-lhe algumas perguntas – ela as replicava como se quisesse se ver livre de algo que lhe encarcerava uma doce lágrima de dor.

E Roseli respondia minhas perguntas com uma certa dose de agastamento. Ela disse: “Na verdade, o disco [Amálgama] já tem muito tempo. (...)” E seguiu: “Me cobram muito que eu faça discos, eu digo: quando eu achar o útero, o cerne... eu faço! (...)”. E mandou: “Se for escrever sobre mim, agradeço; falar somente sobre o CD, pode ser, agradeço, mas eu sou mais que este disco, entende?” Fiquei meio aturdido, mas, enfim, entendi.

"Amálgama" (2003) é um tiro certeiro disparado por uma mulher sem meio-termo, sem "mimimi" nem papas na língua. Suas canções alardeiam, pelos mundos da vida presente e futura, sua personalidade musical/vital/guerreira.

Até aí, eu já ouvira o seu disco várias vezes. Impressionei-me com a concepção do trabalho. Roseli quis algo inusual: cada uma das dez músicas foi confiada a um violonista, ele que tratasse de se virar para entender o desejo idealizado por ela.

No CD, três músicas são de Roseli e sete de outros compositores, além, é claro, dos violonistas e arranjadores que toparam o desafio. Quem haveria de recusar um convite tão convincente, de uma mulher tão determinada?

Com arranjo e violões de Dino Barione, RM deu sua voz (e que voz!) a uma ótima música de Vitor Ramil. Com arranjos, violões e violoncelo de Mário Manga, RM destruiu a mesmice e deu vida a uma de suas composições no CD.

Com arranjo e violões de Élio Camalle, RM vem com a força necessária para cantar a vida numa bela música de Kléber Albuquerque.

Fernandinho Melo (Duofel) envolveu “Vida de Artista”, uma das melhores músicas de Itamar Assumpção, num belíssimo arranjo e entregou-a a RM, que a soube cantar. De novo, Dino Barione arranjou e tocou violões noutra música de RM, que canta como se a voz fosse um instrumento.

Com arranjo e violões de Dante Ozzetti (parceria sua com Luiz Tatit), Roseli Martins segue seu destino de fazer da alegoria o sentido da própria história. 

O tempo de conceber e realizar uma (boa) ideia equivale ao momento em que ela se define e ganha vida própria. Assim eu sinto Roseli Martins, uma cantautora vivida a ferro e fogo.

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