A procrastinação política para a tomada de decisões está cada vez maior. O país perde capacidade para construir agenda e gerar expectativas econômicas e políticas. Sem agenda, os investimentos não acontecem. O agronegócio não vai segurar a peteca sozinho. O ministro Guedes fala em recuperação em forma de “V”. É retórica, sem base real.
Vários sinais de alerta foram acionados. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, alertou o presidente Bolsonaro sobre a iminente fuga de capitais e os riscos fiscais e monetários. O FMI estimou resultado primário negativo de 12% do PIB para este ano, permanecendo negativo até 2025. Sinalizou que a dívida bruta como proporção do PIB deverá ultrapassar os 100% já neste ano. O crescimento previsto para 2021 tem forte “carregamento estatístico”, podendo resultar em apenas 0,5% de crescimento real.
O agronegócio continua vigoroso e a indústria mostrou sinais de crescimento. As exportações também. Mas não há sinais estruturais de sustentabilidade. Ainda mais porque o fim do auxilio emergencial vai estancar o efeito passageiro de crescimento do consumo. Vem daí a necessidade de solução para o dilema teto de gastos “versus” renda básica.
Dados os efeitos estruturais da pandemia, parece incontornável a necessidade de promover, ao mesmo tempo, vigoroso corte de gastos e emissão de dívida. Na medida em que as “faturas” vão chegando, isto vai ficando mais claro. Mônica de Bolle e outros analistas têm chamado a atenção para estes efeitos que vão perdurar. A fatura já chegou para os desempregados e para os autônomos e “invisíveis”. Chegou também para milhares de pequenos e médios empresários do comércio. E vai continuar a chegar para todos os brasileiros.
Os custos do SUS vão aumentar e o desemprego estrutural também. A renda básica vai ficando incontornável. Este não é mais um problema passageiro. Como pagar a conta? O cenário, que mistura a dominância eleitoreira que procrastina decisões com o horizonte de mudanças estruturais, mostra a necessidade de caminhar para um novo consenso.
Fernando Gabeira constata que um dos novos consensos é o de que a natureza passou a ser vista como centro de produção. “Nesse contexto, o Brasil não só emerge como uma potência ambiental, mas como o território onde mais se produz vida no planeta”. A natureza preservada é vista como grande criadora de valor econômico. O mercado gigantesco de crédito de carbono e a cadeia de produção da biodiversidade tornam o Brasil uma potência. Empresas e fundos de pensão internacionais sabem deste potencial e podem canalizar grandes investimentos produtivos sustentáveis para cá.
Nesta direção, e na direção da reforma administrativa e do programa de transferência de renda, o país precisa de senso de urgência.