O presidente eleito está se constituindo como portador da esperança para a solução do maior problema nacional: a exclusão social. Com ameaça à paz social. A tarefa é gigantesca. Requer, mesmo, um presidente com capacidade de negociação.
Requer, também, a costura e a construção de um novo Contrato Social. Tenho repisado este argumento do novo Contrato Social, mesmo com o risco de cansar os leitores. É uma emergência a ser superada nos próximos dois a quatro anos.
Relembrando os clássicos da literatura política, precisamos ter mais de Rousseau - a visão da sociedade de homens-bons, capazes de um contrato social -, e menos de Hobbes - a visão do Estado do homem-lobo-do-homem. Mais de Tocqueville - a participação e a cidadania -, e menos de Platão - a República dos sábios e letrados.
Mais de política e mediação. Menos de confronto e autoritarismo.
É nesta direção que a política nacional parece estar indo. Lula entrou em campo para valer nesta semana. Percebeu que era chegada a hora da “realpolitik”. A governabilidade vai passar pela adoção da realpolitik. E pela vitória na batalha da opinião pública e da opinião publicada - incluindo as redes sociais.
Será na trilha da realpolitik (expressão cunhada por Willy Brandt na experiência da social-democracia alemã) que o governo Lula poderá ser capaz de construir um governo de mudança. A trilha da prática das alianças políticas e da formação de coalizões. A instalação, no governo, da Frente Ampla formada nas eleições.
De pronto, três prioridades - que se tornaram os primeiros nós górdios - são os primeiros focos da realpolitik de Lula. A designação do ministro da Fazenda, para ancorar as expectativas econômicas. A votação da PEC de Transição, para garantir as promessas de campanha e os pressupostos da governabilidade. E a designação do ministro da Defesa, para contornar o fantasma de uma desordem militar e crise política.
Tudo somado, desatar estes três nós, ainda no aquecimento para entrar em campo, é requisito para ancorar as expectativas políticas e sociais. Um sinal, real e simbólico, para mostrar que teremos um novo norte.
Num ambiente de complexidade política, heterogeneidade e conflitos, só mesmo a adoção do caminho da realpolitik. Neste ambiente, a mudança requer mais democracia. Que, por sua vez, requer (outra vez) a prática da formação de alianças de governo e de construção de uma (nova) coalizão de poder.
Temos um longo e acidentado caminho pela frente, em 2023.