Tenho a impressão que as mídias (tradicional e digital) e o mercado político estão superestimando o peso do bolsonarismo no Espírito Santo – a julgar pelo desempenho eleitoral olhado em perspectiva. Vamos devagar com o andor. Explico-me.
Na prática, comparado com o último desempenho em 2018, Bolsonaro teve, em 2022, apenas 5.534 votos a mais. 1.276.611 votos em 2018 e 1.282.145 em 2022. Comparativamente, Lula cresceu muito mais. Ele obteve, em 2022, 178.999 votos a mais do que Haddad teve em 2018. 747.768 votos em 2018 e 926.767 em 2022.
Este fato se repetiu em todos os quatro Estados do Sudeste (SP, RJ, MG e ES). Lula cresceu mais do que Bolsonaro, em termos absolutos, no Sudeste. Nos quatro Estados, Lula somou 7,7 milhões de votos a mais do que Haddad obteve em 2018.
Hoje, já se constatou que foi o avanço no Sudeste que impulsionou a vitória da Frente Ampla de Lula. No Sudeste, embora tenha conquistado a maioria agora em 2022, Bolsonaro teve queda em números absolutos de 1,3 milhão de votos. Ou seja, Lula teve a sua mais significativa maioria no Nordeste. Mas foi no Sudeste que ele mais impulsionou a sua vitória, dado o maior peso eleitoral do Sudeste no país.
Olhando em perspectiva, houve uma espécie de “recuperação vermelha” em 2022. Lula conseguiu resgatar parte do “eleitorado original” do PT, conforme já apontou Bruno Carazza: avançou também na classe média e média baixa nas grandes cidades do centro-sul do país.
Diante desta perspectiva, é cedo para cravar que o Espírito Santo virou bolsonarista.
Lula foi eleito presidente e poderá impulsionar ainda mais o crescimento da centro-esquerda no Estado. Terminou com 40% no segundo turno. É um fato: perdeu crescendo.
Os sinais estão nas votações do centro e da centro-esquerda para deputado federal e para deputado estadual. E na própria reeleição de Renato Casagrande (PSB).
Vale relembrar, também, que é necessário diferenciar o conservador do reacionário. O bolsonarismo raiz, mais reacionário, tem 12% a 15% de apoio eleitoral no país, segundo Esther Solano. Grande parte dos conservadores convergiu para Bolsonaro devido ao antipetismo estrutural e à falta de relevância eleitoral dos candidatos de centro do espectro político.
As placas tectônicas de 2013, que resultaram em Bolsonaro em 2018, têm agora um contraponto. O avanço silencioso das placas tectônicas que ancoraram a Frente Ampla com a bandeira da democracia.
Aqui no Estado, mais especificamente, a formação da nova Assembleia Legislativa mostra um crescimento dos principais partidos que apóiam o bolsonarismo (PL e Republicanos), secundados por outros como o PP e o PTB. Mas a resultante é um equilíbrio de forças.
Os partidos de centro e centro-esquerda têm, somados, 14 deputados do total de 30 deputados. Refiro-me ao PSB, Podemos, PT, PSDB, PDT, PSol e Cidadania. Se considerarmos o União Brasil, chega-se a 16 deputados. De qualquer forma, há um rigoroso equilíbrio de forças.
A eleição da Mesa Diretora, em fevereiro, dirá como vai ficar a correlação de forças no Legislativo.
Tudo aponta que as placas tectônicas se movimentam lentamente para a centro-esquerda. Agora, com as eleições de Renato Casagrande aqui e de Lula no Brasil, a tendência é de crescimento da centro-esquerda, começando pelas eleições municipais de 2024. A conferir.