Cada qual à sua maneira, mas sempre pensando fora da caixa, Pérsio Arida e André Lara Resende, coformuladores do Plano Real, voltam a dar contribuições seminais para o debate nacional. Em busca de novo paradigma de
política econômica.
Compreendendo a gravidade do momento histórico, ambos caminham pelas trilhas da
economia política. Arida lançou, em co-autoria com cinco economistas importantes, um conjunto de propostas para o governo que vai assumir em 2023: “Contribuições para um Governo Democrático Progressista”.
Apontando a necessidade de reformas estruturais que busquem o apoio da sociedade, Pérsio defende a “primazia a argumentos da
economia política em relação aos argumentos estritamente econômicos, o que é uma novidade. Um governo com ímpeto político sustentado apenas pelo carisma do governante, capaz de encaminhar com sucesso as reformas sem violar o teto de gastos, traria efeitos imediatos positivos sobre a
inflação e o crescimento. E esses efeitos poderiam gerar um círculo virtuoso(...)".
Para ele, o caminho passa por programas especiais na área social, com revisão de gastos e cortes nas despesas obrigatórias. Com nova governança nas áreas orçamentária e fiscal. As propostas dele(s) estão na mesa. Na essência, sublinha Pérsio, “há que se pensar nos termos da
economia política e não da
economia ‘tout court’”.
Por sua vez, Lara Resende acaba de lançar um ensaio bem fundamentado com uma reflexão crítica da macro
economia neoclássica. Polêmico, ele alerta para o caráter ideológico das narrativas econômicas hegemônicas: “Não se pode ter democracia sem reduzir a desigualdade, mas não se reduz a desigualdade amarrando as mãos do Estado na camisa de força ideológica da macro
economia clássica” (em “Camisa de força ideológica - a crise da macro
economia”).
Para André, na mesma trilha da
economia política, é fundamental repensar a governança do Estado. “O (re)desenho das restrições institucionais ao seu poder financeiro, assim como da sua delegação ao sistema bancário, é elemento fundamental da boa
política econômica”.
As crises recentes de 2008 (crise financeira) e de 2020 (pandemia) mostraram, para ele, que sem restrições institucionais o Estado tem capacidade ilimitada de dar crédito e de criar poder aquisitivo. Sem gerar efeitos inflacionários negativos. Desde que a
política monetária (juros) seja coordenada com a
política fiscal (orçamento). Com taxas de juros que não sejam fixadas acima da taxa de crescimento - garantindo relação virtuosa entre PIB e dívida pública.
Para André a restrição do poder estatal de dar crédito e poder aquisitivo beneficia o capitalismo financeiro, sobretudo a partir do último quartel do século XX, “quando os ativos e os passivos financeiros cresceram desproporcionalmente em relação à renda”.
As campanhas para presidente do Brasil começaram. Oxalá Persio Arida e André Lara Resende sejam ouvidos e que suas ideias sejam incorporadas aos debates presidenciais, em conexão com a sociedade. Mais de visão político-institucional de
economia política, menos de visão da
economia “tout court”.
Está em curso a formulação de um novo paradigma de
política econômica. É preciso debater com a sociedade. Conquistar o apoio da sociedade. Para que o paradigma se torne realmente um paradigma. Com legitimidade para ser implementado pelo presidente a ser eleito nessas eleições - com apoio do Congresso Nacional.