A marcha da formação de uma frente ampla para a defesa da democracia resultou na vitória de Lula. Agora, assistimos à outra marcha: a tessitura da transformação da frente eleitoral em frente para governar o país.
No meio do caminho, tem uma pedra. A controvérsia sobre o desafio de articular responsabilidade social e responsabilidade fiscal agitou o mercado financeiro e as mídias e está causando um rebuliço. Mais calor do que luz e muita espuma. Não podemos perder a perspectiva que grupos de transição não são formação de ministério. Trata-se, apenas, de fazer o diagnóstico da situação encontrada e construir as primeiras propostas.
Felizmente, na última quinta-feira à noite, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, garantiu a Míriam Leitão que “não há hipótese de haver irresponsabilidade fiscal no novo governo”. E mais. Disse que haverá cortes de gastos e foco na reforma tributária (para aumentar a produtividade e gerar crescimento e emprego). Para ele, “a eficiência do gasto é uma obra interminável. Vamos fazer a revisão de todos os gastos federais”. Bingo.
Passada a esponja na espuma, o que importa é Lula articular consenso para criar alicerce na formação do ministério e da equipe de governo. A sorte do novo governo nacional depende do êxito político desta intrincada tessitura de formação e composição de um governo de frente ampla. Uma nova coalizão de governo que possa representar a mediana da representação política da sociedade no Congresso Nacional e, ao mesmo tempo, representar/espelhar os muitos tons de cinza do espectro político da sociedade brasileira.
Representar o quê mesmo?
As manifestações de 2013 resultaram em 2018. Resultaram no bolsonarismo. Que veio para ficar. Encaixado em novo espírito de época (zeitgeist). Tirou a extrema direita do armário (o que é bom para a democracia) e deu à direita uma nova narrativa - que construiu uma cidadela política e eleitoral para Jair Bolsonaro.
Constata-se, mais uma vez, que o Brasil tem forte presença do conservadorismo. Mas isto não significa igualar e reduzir o conservadorismo ao bolsonarismo. Já sabemos que o centro e a centro-direita são maiores que o bolsonarismo raiz. Há reacionários e há conservadores. Esther Solano estima que o eleitor mais radical e raiz representa de 12 a 15% do eleitorado.
A frente ampla significa um contraponto histórico. Um (novo) movimento lento e silencioso de placas tectônicas na sociedade brasileira, que levou à eleição de Lula. 2022 tende a resultar na progressão de novo espírito de época (zeitgeist) no país, a partir de 2023. É mais do que uma onda eleitoral. Pode ter o efeito de uma passagem de época.
A portadora da entrada na nova época é a eleição da frente ampla em formação, liderada por Lula. Ela é maior que o lulopetismo. O símbolo é o despertar dos contrários, da centro-direita à centro-esquerda. Mais do que isto, é o despertar da sociedade civil.
O encontro das placas tectônicas de 2013 com as placas tectônicas de 2023 pode resultar em nova configuração, nos próximos anos, no “continuum” que forma o espectro político nacional, da extrema direita à extrema esquerda – muitos tons de cinza. No meio tempo, é preciso sublinhar que há uma superestimação da supremacia da direita no Congresso Nacional recém eleito. Ele volta mais conservador em 2023. Mas, também, com muitos tons de cinza. A formação de maiorias é volátil. O fiel da balança é mais amplo do que o bolsonarismo raiz. Inclui a centro-direita liberal e a direita fisiológica.
Este fiel da balança, no centro, é avesso aos extremismos. Entendendo-se o centro como compreendendo o chamado centro democrático (MDB, PSD, PSDB-Cidadania e Podemos) e, também, o Centrão (PL, PP, União Brasil, Republicanos).
Bruno Carazza identifica que, dos 513 deputados que tomarão posse, 235 são filiados a partidos de centro ou de direita. Ele constata que “o governismo é predominante nesse grupo”. Nas suas contas, a esquerda (PT-PV-PCdoB, Psol-Rede, PSB e PDT) contará com apenas 125 deputados federais e 14 senadores. E o bolsonarismo “fez em torno de 120 cadeiras na Câmara e 13 no Senado. Portanto, conclui : “o desempate será definido no centro”.
Formada a frente ampla de governo, dois processos políticos deverão ser cruciais para a formação de maiorias no Congresso (e na sociedade). Primeiro, o exercício da liderança política e carismática de Lula na construção de consensos. 2023 será um ano muito difícil. Segundo, um programa mínimo de governo progressista que aponte para um norte de estabilidade política, previsibilidade econômica e credibilidade social.
Trata-se de um processo de reversão de expectativas políticas e econômicas. Aqui está o “X” da questão: novas expectativas.
Em busca de outra marcha: a marcha da prosperidade. Com a restauração do Estado Nacional e a renegociação do Contrato Social. Responsabilidade social, responsabilidade ambiental e responsabilidade fiscal.