Bolsonaro atacou outra vez a ciência. O presidente tomou a inacreditável decisão de cancelar a homenagem que havia feito aos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinicius Guimarães.
Ela foi excluída da homenagem e exonerada do Ministério da Saúde por ter publicado uma cartilha voltada para homens trans. Ele foi excluído por um estudo que apontou que a cloroquina não tem eficácia no combate à Covid. Ambos foram escolhidos, com outros cientistas, para uma condecoração com a Ordem Nacional do Mérito Científico, uma honraria criada em 1993 para reconhecer contribuições científicas e técnicas de brasileiros e estrangeiros.
A comunidade científica reagiu. Em carta aberta, todos os outros 21 cientistas condecorados rejeitaram a medalha. Afirmaram que “em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação”. Um gesto que teve grande repercussão nacional.
Inacreditável. Bolsonaro pilota uma espécie de aliança contra o progresso. Steven Pinker tem mostrado a evolução do progresso. Iluminista, ele tem constatado que o progresso é um fato histórico e que “nas últimas sete décadas os seres humanos se tornaram (em média) mais longevos, mais saudáveis, mais seguros, mais ricos, mais livres, mais justos, mais felizes e mais inteligentes, não apenas no ocidente, mas no mundo inteiro”.
O progresso não é inevitável, mas tem impulsos fortes, diz ele: a ciência, a medicina, a educação, os direitos humanos e a democracia. Pinker previu que os anos 2020 seriam repletos de crises, conflitos e problemas. Mas que o progresso mostraria que é possível e necessário mais progresso - a ser conquistado com o conhecimento científico e a tecnologia disponíveis.
E conclui, em perspectivas para o horizonte dessa terceira década do século XXI, que os problemas são inevitáveis, mas são solucionáveis, e as soluções criam novos problemas que podem ser, por sua vez, resolvidos. Uma visão Iluminista. De uma era de incertezas e volatilidade. Uma era de contenção do progresso.
Por ter esta mesma visão Iluminista, penso que o gesto de Bolsonaro é muito grave. Até as paredes brasilienses sabem, vale repetir, que a ciência foi capaz de investigação científica e conclusão, em tempo recorde, da solução da vacina contra a Covid. Praticando a lógica científica do ensaio-erro nas descobertas científicas, na melhor tradição de Karl Popper, foram os cientistas que atenuaram a tragédia da pandemia da Covid-19. É cristalino.
Mas o gestual negacionista continua alimentando a persistência da Covid e da morte. Na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. No século XXI, é assustadora a negação da ciência e da vacinação, apesar das evidências cabais da sua efetividade. Alguns dizem que é uma opção anarquista. Outros atribuem a causa à polarização política. É perverso. Barbárie.