A iminência de estagflação em 2022, percebida no Brasil, Estados Unidos e Europa, acendeu um alerta. A combinação de aumento de preços e queda do crescimento (estagflação) está de volta ao debate econômico e político. A porta da saída requer ajustes no pensamento econômico e nos contratos sociais dessas sociedades. Para lidar com as sequelas estruturais que a pandemia está deixando e que se superpõem a mudanças que já estavam em curso nessas sociedades.
As mudanças e sequelas tornam emergente a articulação de novo consenso, lá e cá. Quanto ao pensamento econômico, os novos desafios vão além de Keynes e Friedman. Além do paradigma keynesiano do “capitalismo administrado” do pós-guerra. Além do neoliberalismo fiscalista de Friedman. Surge uma terceira ênfase, a dos economistas heterodoxos do “afrouxamento quantitativo” e do Green New Deal. Os atuais desafios são mais complexos.
Na essência, a emergência de novos problemas, novos conflitos e novas pressões sociais ampliaram os eixos de clivagens. Às tradicionais clivagens sociais e regionais, foram acrescentadas as clivagens identitárias, culturais e religiosas. Agora, além da questão fiscal, são cruciais as questões das desigualdades, das mudanças climáticas, da pobreza e da saúde.
O Plano Biden, referência da Nova Agenda, coloca ênfase em energia, infraestrutura e formação de mão de obra. Mas também incorpora o fortalecimento do poder de barganha do trabalho e a valorização da economia dos cuidados: saúde, infância e idosos. E amplia a noção tradicional de infraestrutura: é importante ter estradas e portos, mas é também importante ter educação, creches, saúde e atenção aos idosos. Faz parte das medidas para facilitar a operação do mercado e do crescimento econômico. Requer investimentos públicos.
A busca do novo consenso transborda para a realidade brasileira. A recuperação de 2021 está perdendo fôlego e alimenta temores de estagflação. Também fomos atingidos pelo choque de oferta (desorganização das cadeias produtivas) com repressão da demanda. Lá e aqui: inflação de alimentos, de energia, de fretes, de demandas salariais. Uma realidade econômica a ser pilotada com novo pensamento econômico, ainda em construção e em processo de experimentação. Seria um mix de Keynes, Friedman e heterodoxia?
É preciso dar conta das mudanças de clivagens na sociedade e das mudanças demográficas – de raças, gêneros e gerações. E, aí, vem o entrelaçamento do consenso econômico com o consenso político. A economia política da Nova Agenda. No Brasil, nos anos FHC e Lula, o Brasil construiu um raro consenso na política e na economia. Ambos governaram com a formação de coalizões e ambos praticaram políticas de estabilidade econômica e reformas institucionais. Ambos fizeram entregas relevantes e promoveram o crescimento com inclusão social e democracia.
Agora, é urgente novo consenso político, com novos paradigmas para o crescimento do país. Temos estagflação em nossa porta. Teremos energia social para forjar o consenso?