Caminhamos para o final do ano com ambiente político desagregador e regressivo. Depois do momento de resistência das instituições no
7 de Setembro, com defesa consensual da democracia, a política nacional foi sequestrada pela lógica eleitoral de 2022. Está difícil vislumbrar caminhos para que as
eleições de 2022 venham a criar energia social para um novo consenso.
No centro político, o da terceira via, a proliferação de candidaturas, agora acrescidas da
provável candidatura do ex-juiz Sergio Moro, produz mais calor do que luz. Uma cacofonia que impede a visão do horizonte. Ao mesmo tempo, a lógica de polarização do bolsonarismo e do lulismo cria um jogo de soma zero. Juntas, a cacofonia no centro e a polarização nos extremos tiram da política a capacidade de criar expectativas de soluções para os problemas que se avolumam no país.
A reconstrução da esperança e a tessitura de um projeto de país estão ausentes. O
Congresso Nacional já opera no modo eleitoreiro. As possibilidades de reformas, como a
administrativa e a
tributária, são remotas. A situação econômica e social do país volta a piorar. A política gera instabilidade e queda de investimentos. E o
governo federal tem problemas de governança.
Os indicadores são alarmantes. Para 2021, a expectativa de crescimento diminui para um pouco mais de 4%. Como a base de cálculo foi negativa em 4,2% em 2020, significa que o crescimento real poderá ser de apenas 0,5%. Para 2022, poderá ser de apenas de 1,0% a 1,5%. Com sinais de estagflação. Há sete anos o Brasil não cresce. O país tem 70 milhões de miseráveis e 100 milhões de pobres. O número de favelas mais do que dobrou, passando para 13.151 em 734 cidades. 55% dos brasileiros têm insegurança alimentar e as dívidas já chegam a 59,9% da renda média das famílias.
No meio do caminho da busca de consenso político para enfrentar a tempestade estão, além da polarização política regressiva, o fortalecimento do corporativismo e do patrimonialismo e a paralisação do ânimo reformista. São obstáculos estruturais aos avanços e a restauração do Estado. Quem vai criar energia social para superar esses problemas, criando conexões e empatia com 170 milhões de brasileiros pobres e miseráveis?
Renato Meireles revelou que as pesquisas conduzidas pelo Instituto Locomotiva mostram que os brasileiros querem entregas de serviços públicos, o que ele chama de Estado presente - não tendo a ver com o tamanho, mas com políticas que abram oportunidades e soluções. Quem vai endereçar essa questão? 60% da direita também defendem intervenção direta do Estado. É provável que a pauta de costumes não venha a ser a principal, como foi em 2018, na eleição do “não”. Agora, deverá ser a eleição do “sim”.
Uma energia social emergiu em 2013. Está latente. A política precisa permitir que ela se expresse. As despesas obrigatórias, incluindo as emendas parlamentares, capturam 95% do Orçamento da União. O país vive para o governo, e não o governo para o país. Vai mudar?