Há gargalos, incertezas e contradições sob a superfície do
boom nas economias do mundo rico e, também, na recuperação dos emergentes como o
Brasil. Este é o alerta da prestigiosa revista "The Economist". É uma recomendação de cautela. São fatos e movimentos inéditos.
Para a revista, é um estranho boom. Uma profunda e longa recessão seguida de um boom. Economias em expansão com incertezas que geram ansiedade. Isto porque o boom contém intrínsecos fenômenos que produzem trincas e rachaduras. Vale enumerar.
A primeira se refere à desigualdade entre países com vacinação adiantada e países lentos. Só os vacinados controlam a
Covid-19 e voltam a movimentar a economia em ritmo quase normal. Aproximadamente, apenas 1 em cada 4 pessoas no mundo tinham tomado a primeira dose até poucos dias atrás. Mesmo nos
Estados Unidos, alguns estados estão mais atrasados do que outros. Esta desigualdade refreia as possibilidades de expansão global do crescimento. Até quando?
A segunda rachadura tem a ver com os desequilíbrios entre oferta e demanda e consequente desorganização das cadeias econômicas globais. Por exemplo,
a escassez de microchips interrompeu a fabricação de eletrônicos e carros. Ainda, o alto custo do frete internacional prejudica o fluxo de mercadorias vindas da China. Criam-se gargalos. Sem falar na escassez estrutural de mão de obra e na escalada nos preços dos imóveis e aluguéis. Fontes de inflação.
Por último, a terceira rachadura começa a aparecer com a retirada dos incentivos para pessoas e empresas. Só no mundo rico, os bancos centrais compraram ativos de mais de US$ 10 trilhões. Como se “libertar” destes ativos e qual será o efeito disto no mercado de capitais? E assim por diante. A China diminuiu o crédito em 2021 e vai ter queda de crescimento em seguida. Os auxílios às famílias vão expirar até 2022. As falências e demissões vão continuar.
Tudo somado, o alerta da "Economist" chama a atenção para a inflação e, também, para um possível superaquecimento das economias. Em países como o Brasil, apesar do aumento da demanda por commodities, já se vê que o desequilíbrio entre oferta e demanda provoca mais inflação e alta nas taxas de juros. Assim, “a combinação de vacinação tardia com aperto monetário mais cedo poderá ser dolorosa”, diz a revista. Para concluir: “neste estranho boom, cuidado com as rachaduras”.
No Brasil, ainda, vale registrar que a inflação afastou temporariamente a situação de dominância fiscal. O próprio FMI projeta déficit primário de apenas 1,7% em 2021. Entretanto, Luiz Carlos Mendonça de Barros estima que só vai ser possível a volta do superávit em 2024 “se o crescimento médio entre 2022 e 2023 for algo da ordem de 3% a.a.”.
Isso só poderá ocorrer, diz ele, se houver controle das despesas primárias e se o crescimento econômico normalizar a arrecadação de impostos. Assim, as incertezas permanecem, ainda mais por causa da instabilidade política. O freio de mão está puxado.