Se haverá tempo da economia reagir de forma firme e sustentável, ainda não sabemos. Pelo menos dentro de um intervalo razoável e aceitável de certeza. Como o futuro por definição é incerto, a amplitude de possibilidades aumenta.
Mas, alguns fatos novos podem indicar tendências de cenários mais amenos para os próximos anos. E dentre esses, aliás o principal deles, relaciona-se à boa notícia vinda do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que o Brasil fechará 2021 com um déficit primário de 1,7% do PIB, podendo chegar em 2024 ao superávit.
A notícia é boa principalmente porque o país estaria saindo de um déficit primário que chegou à casa dos 10% do PIB em 2020, com um estoque de dívida pública projetado para quase 100% do PIB. Situação que, em leituras de especialistas, empurraria o país para o pior dos “mundos”, um cenário denominado por economistas de “dominância fiscal”, que é quando a dívida pública alta e custosa bloqueia os efeitos de uma política monetária contracionista de combate à inflação, levando o governo a impor restrições da demanda pelo lado fiscal, com redução de gastos.
Podemos identificar três fatores que estão direcionando a economia a sair da rota cujo desfecho poderia levar a um cenário mais complicado, bem característico de “dominância fiscal”, segundo ala mais liberal de economistas. O primeiro deles diz respeito ao crescimento da economia, que poderá chegar a quase 6% neste ano, naturalmente admitindo-se que isso decorre em grande parte de uma base muito baixa da economia, em 2020.
Isso significa mais receitas nos cofres dos governos. O segundo, o mérito vem do comportamento moderado das despesas primárias, ou seja excluindo-se o custo da dívida. As despesas primárias tendem a crescer menos do que a inflação. E a inflação em alta, paradoxalmente, constitui-se no terceiro fator a ajudar, baixando a pressão sobre os gastos, principalmente de pessoal, e elevando a arrecadação em termos nominais.
Temos aí, portanto, três ingredientes que funcionarão como atenuantes do lado do governo federal nas suas políticas, e que irão balizar a trajetória de desempenho da economia para os próximos anos. Se não ocorrerem atropelos inesperados e, sobretudo, a política permitir, é possível até supor que a economia cresça em média 3% nos próximos três anos. Assim, não se descarta chegarmos em 2024 com um superávit primário. É desejar para ver.