Confesso nunca ter me deparado com uma situação na qual crescimento econômico e desocupação seguem na mesma direção. É o que estamos observando no momento. Enquanto as projeções de crescimento do PIB são ajustadas para cima, com expectativa que já chega à casa dos 5%, a sua contrapartida esperada de impacto na taxa de desocupação, que supostamente se reduziria, numa relação de causalidade, ao contrário, deverá fechar neste ano em cerca de 14,3%, contra 13,5% do ano passado.
Ou seja, o tão esperado efeito sobre a taxa de ocupação da força de trabalho que pelo crescimento do PIB, praticamente já assegurado, e que já retomou o nível pré-pandemia, parece não se efetivar neste ano. O Brasil ainda manterá mais de 14 milhões de pessoas em condições de trabalho fora de atividade.
O país fechou o primeiro trimestre deste ano com 100,4 milhões de pessoas fazendo parte da sua força de trabalho, dos quais 85,6 milhões na condição de ocupados, segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) trimestral do IBGE. Isso significa que há 14,8 milhões sem ocupação, mesmo com a reação da economia crescendo a 1,2% no trimestre, repondo as perdas decorrentes em 2020 por conta da pandemia.
No entanto, não chegaremos à mesma conclusão se tomarmos como referência dados de ocupação apresentados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), estes com carteira assinada. Para a categoria em questão, a recuperação de postos de trabalho desde o início da pandemia foi de 2,3 milhões. Compatível com a movimentação da economia em geral.
A questão é que essa categoria de emprego formal, com carteira assinada, representa apenas 37,5% do total de ocupações, que somadas aos funcionários públicos estatutários chegam a 50%. Esse contingente está mais protegido. Os funcionários pela estabilidade e os de carteira assinada contaram com o mecanismo de proteção com redução temporária de jornada. O lado mais frágil, e que mais sofreu com a pandemia, é representado por cerca de 48%: conta própria, emprego doméstico e empregados do setor privado e público sem carteira assinada.
E é exatamente para este último contingente que as dificuldades se apresentam bem maiores na hora de buscar novos postos de trabalho. Isso porque compõem grupos de atividades econômicas ainda não alcançados totalmente pela retomada do PIB. Em outras palavras, se mostram inelásticos, pelo menos temporariamente, ao crescimento econômico. Muito provavelmente esse descompasso, que encontra respaldo na dissincronia de crescimento entre diferentes setores, deverá perdurar no próximo ano. Um ingrediente que poderá pesar inclusive nas eleições.