Dizia-se, no século passado, que o futebol era a religião laica do planeta. Um território sagrado onde a geopolítica e as barreiras de classe social se curvavam diante de uma bola de couro.
Mas a Copa do Mundo contemporânea cansa de nos lembrar que esse romantismo ruiu. Em um planeta fraturado por desigualdades abissais, o maior torneio esportivo da Terra deixou de ser a consagração do talento para se transformar no ápice do capitalismo tardio. Espetáculo asséptico, elitizado e feito sob medida para iniciados corporativos.
Houve um tempo em que o futebol era definido pela destreza pura, pela malemolência que nascia do improviso e pelo dom que desafiava a lógica. O drible era uma resposta poética à opressão. Hoje, o jogo virou uma ciência exata de laboratório, moldada por algoritmos de desempenho e, acima de tudo, por estratégias de marketing e status.
O jogador de futebol moderno não é mais apenas um atleta, é uma holding, uma marca global ambulante. O drible perdeu espaço para a "transição defensiva eficiente", e o carisma foi engolido por assessorias de imprensa protetoras. A arte deu lugar ao produto.
A crítica mais dolorosa a esse cenário está na raiz do esporte. O futebol nasceu e cresceu nos pés dos descalços, nas periferias e nos terrenos baldios. São os meninos dessas mesmas periferias que ainda vibram, pintam as ruas e sustentam a alma do torneio com uma paixão visceral. No entanto, esses mesmos jovens foram sumariamente banidos da festa oficial.
Com ingressos cotados em moedas fortes e pacotes de hospitalidade que custam fortunas, os verdadeiros donos da cultura do futebol não conseguem nem sequer chegar perto dos portões dos estádios-ostentação.
O esporte que outrora unia as massas passou por um processo de gentrificação brutal. Os estádios modernos, transformados em arenas corporativas e "gourmetizadas", expulsaram o cimento, a geral e o torcedor de arquibancada para dar lugar a plateias VIPs, apáticas e higienizadas. O futebol, antes patrimônio dos pobres, virou o brinquedo de luxo das elites.
A engrenagem que move a Copa do Mundo atual não é a busca pela glória esportiva, mas o balanço financeiro. Cidades são destroçadas por despejos forçados para dar lugar a elefantes brancos, direitos humanos são relativizados em prol de patrocínios bilionários e o calendário do esporte é retalhado para satisfazer os direitos de transmissão. É um jogo de interesses geopolíticos e econômicos onde a bola é mero detalhe.
Para piorar, até a mística do jogo foi sequestrada. A introdução de tecnologias obsessivas, como o VAR levado ao extremo, roubou a dinâmica e a fluidez da jogada. O futebol sempre viveu do erro humano, da dúvida que gerava a crônica, da polêmica de boteco que atravessava gerações e virava história. Ao tentar transformar o esporte em um software perfeito e milimetricamente revisado, a tecnologia acabou por assassinar o imponderável.
Assistir a uma Copa do Mundo hoje exige um exercício incômodo de dissonância cognitiva. É preciso ignorar o abismo social que separa o torcedor que assiste ao jogo em uma TV emprestada na favela do camarote climatizado onde CEOs brindam ao lucro.
O futebol não morreu, pois ele resiste onde há uma bola de meia e duas sandálias servindo de trave. Mas a Copa do Mundo, em sua opulência obscena, perdeu o coração. Virou um banquete de bilionários onde o povo, que criou a receita, só é convidado para lavar os pratos.