Aprendi, com o tempo e a experiência, mas sobretudo contando com a minha formação acadêmica, que temos que ter cuidado ao analisar números, indicadores e outras variadas formas que pode tomar uma dada informação, genericamente falando. Especialmente números, para entendê-los e compreendê-los nas suas “mensagens”, muitas vezes temos que “estressá-los”, literalmente, sob pena de cairmos em armadilhas. E, entre estas, no que podemos denominar de ilusionismo estatístico.
Expressões numéricas, sejam elas em estado bruto ou tratadas por meio de aplicação de ferramentas estatísticas, nos servem para analisar e avaliar fatos, eventos, tendências, relações de causa e efeito e uma infindável gama de propósitos. Podem, no entanto, também nos conduzir a erros de avaliação, ou vieses cognitivos, se descontextualizadas e não relativizadas.
Me surpreendi, recentemente, com uma informação veiculada nas redes sociais, ressalvando-se que não teve origem na Receita Federal, e até em tom de ufanismo, mostrando o extraordinário crescimento da arrecadação, numa comparação entre o mês de abril deste ano com o mesmo mês do ano passado. Confrontando-se os números nos dois momentos, de fato o crescimento foi de 45%, em termos reais, ou seja descontando-se a inflação.
Um número extraordinário diante do contexto atual. Não há nenhum erro estatístico nisso, mas sim na análise derivada, mostrada na matéria veiculada, que imputa como origem causal a eficiência da máquina arrecadadora.
Também não se intenta aqui contestar a eficiência fiscal, mas a informação na forma como foi mostrada pode induzir ao que podemos denominar de viés cognitivo – “cognitive bias” –, que é derivado de uma ilusão estatística. Primeiro, pelo fato de se estar tomando como base de cálculo de variação o mês de abril de 2020, o pior mês desde 2014.
E foi pior por várias razões. A principal delas pelo fato de ter sido também o pior mês em termos de desempenho econômico. O país praticamente parou. Por outro lado, o governo federal tomou várias medidas, e acertadas, de diferimento no pagamento de tributos e outras compensações fiscais.
Se existem explicações para o fato de abril de 2020 ter tido uma arrecadação extraordinariamente baixa, da mesma forma existem para uma extraordinária arrecadação em abril de 2021. Naturalmente, sem que se induza a uma avaliação de que as coisas no geral tivessem melhorado de forma extraordinária.
O que aconteceu em abril de 2021 é que as empresas tiveram que arcar com as tais compensações e diferimentos e outros alívios tributários. Somente em diferimentos a arrecadação de abril deste ano foi acrescida em 25 bilhões de reais.
Assim, manchetes do tipo “Arrecadação Federal sobe 45% em termos reais em abril de 2021, melhor desempenho desde 1995” pode induzir a erros típicos de ilusão estatística ou “cognitive bias”.