Voltar para nós mesmos deve ser inegociável como o ponto daquela carne
Crônica
Voltar para nós mesmos deve ser inegociável como o ponto daquela carne
Penso na minha velha lista. Ainda me vejo nela. Mas percebo que falta um item ao lado de perseguir a máxima de não fazer com alguém o que eu não gostaria que fizessem comigo
Andei sumida, da escrita, de certos afetos, de alguns lugares, de mim mesma.
A reunião, a demora, o ombro, a dor, o prazo do imposto de renda, a lei escrita em letra miúda, a chuva e certas questões repetidas roubaram o tempo, roubaram a brisa.
As notícias, o algoritmo, a má política, a foto dos inocentes escancarada no jornal como se fossem culpados, a diferença no trato, a cor da pele que se repete, sempre, sem falhar, roubaram o otimismo, roubaram a esperança.
A clareza da percepção tardia, exatamente como estava escrito, a nos lembrar que seria incrível ver nossa falha no momento em que estivéssemos falhando, a tempo de rever uma frase, de refazer uma escolha, de oferecer uma alternativa, roubou a cena, roubou o sono.
Chimamanda tem razão.
O corpo sabe quando não fomos feitos para viver desta ou daquela maneira.
Quatro anos atrás, isolados que estávamos para fugir da morte, escrevi que a pandemia tinha sido certeira na missão de minar uma mania raiz, tipicamente brasileira.
A praga, afinal, havia tirado a alegria de nós, a fé na festa, o hábito de rir apesar das ausências, o modo de dançar apesar das perdas, a mania de celebrar o sol a despeito de todo o resto.
Eu não falava das pequenas alegrias da vida adulta, como naquele dia em que roubei do rapper o título do texto. Falava do jeito coletivo de sambar, literal ou metaforicamente, na cara dos problemas. Falava deste misto de talento tropical com resiliência, mesmo quando as coisas pesam.
Homem apreciando a paisagem em um parqueCrédito: Pixabay
Hoje os desafios são outros, mas estamos vivos, firmes e mais ou menos fortes. Voltamos a ser alegres, dentro do possível, e certos combinados seguem inegociáveis como o ponto da carne naquele restaurante famoso pelo churrasco e pelo tratamento duvidoso dedicado aos frequentadores.
Inegociável. Adjetivo de dois gêneros. Aquilo que não se pode negociar; que não é passível de negociação.
O que é inegociável pra você?
Penso na minha velha lista. Ainda me vejo nela. Mas percebo que falta um item ao lado de perseguir a máxima de não fazer com alguém o que eu não gostaria que fizessem comigo, lealdade, casa ajeitada, contas em dia, chegar na hora, saber o tempo de ir, não esquecer o motivo das partidas.
Falta um item ao lado de cuidar dos meus enquanto seja possível, de ter honestidade, ética, afeto, trabalho duro, de correr com quem corre comigo, de seguir a máxima de que posso tudo, mas nem tudo me convém.
Voltar pra escrita, pra certos afetos, pra alguns lugares, pra nós mesmos, agora ou quando pudermos, cedo ou tarde, mas sempre, deve ser inegociável como o ponto da carne naquele restaurante famoso pelo churrasco e pelo tratamento duvidoso dedicado aos frequentadores.
Ana Laura Nahas
É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura