A recepcionista de um restaurante da moda em São Paulo avisa, tão logo chega a nossa vez de ocupar uma das mesas:
- O ponto da carne é inegociável.
Inegociável. Adjetivo de dois gêneros. Aquilo que não se pode negociar; que não é passível de negociação.
O ponto inegociável da carne: malpassado.
Segundo carnívoros convictos e churrasqueiros-raiz, é esse o ponto certo, aquele em que a proteína atinge o auge de textura e de sabor. É este, portanto, o nível de cozimento - ou ausência dele - que devemos escolher se quisermos preservar o gosto e a consistência naturais da carne.
Eu passo, e espero que os carnívoros convictos e churrasqueiros-raiz me desculpem por eu ter pedido empanadas de queijo no restaurante em que negociar o preparo da carne estava fora de cogitação.
Afinal, no território dos outros, é preciso respeitar o inegociável alheio. Vale para o ponto da carne, vale igualmente para os valores, os limites, as escolhas, quase tudo.
Que coisas são inegociáveis para você?
Que valores, limites, escolhas e tempo de cozimento você carrega como princípios e deles não abre mão, a despeito do risco de ser mal interpretado, detonado ou cancelado?
Viver em paz, eu diria, mesmo que isso signifique decisões difíceis e caminhos tortos. Dizer a verdade com zelo, seguindo a máxima de não fazer com alguém o que eu não gostaria que fizessem comigo.
Cuidar dos meus, até que não seja mais possível. Lealdade, como no samba antigo de Wilson Batista e Jorge de Castro.
Que coisas são inegociáveis para você?
Que caminhos, renúncias, afastamentos e permanências você escolhe como regras e delas não abre mão, a despeito do risco de ser excluído, largado ou malsucedido?
Uma casa ajeitada, as contas em dia, chegar na hora, saber o tempo de ir, não esquecer o motivo das minhas partidas. Honestidade, ética, afeto, trabalho duro.
Seguir o sol, manter a arte ao alcance do corpo, de vez em quando o silêncio. Correr com quem corre comigo, seguindo a máxima - ela também inegociável - de que posso tudo, mas nem tudo me convém.