Quando bell hooks se foi, no finalzinho de 2021, escrevi aqui mesmo neste espaço sobre a ética amorosa da autora, do amor como prática que vai além do sentimento, uma construção cotidiana e disciplinada que busca igualdade, justiça e bem-estar coletivo.
Amar, ela dizia, significa não fraqueza ou irracionalidade, mas potência. Um sentimento que encontramos no agir com afeto, confiança, reconhecimento, respeito, compromisso, honestidade e comunicação aberta e que pode ajudar a romper com longos ciclos de machismo e patriarcado.
Mas o que fazer quando a falta da ética amorosa vem de dentro, a léguas de distância do que aprendemos como sororidade e solidariedade? Como agir quando o ataque parte das próprias mulheres? Por que é tão difícil para tantas de nós saírem desse lugar de competitividade que nos colocaram desde sempre?
Pode parecer estranho, mas a verdade é que somos criadas, com raras exceções, para colaborar com os homens e competir com as mulheres.
Comprometidas contra solteiras, belas-recatadas-e-do-lar contra livres-leves-e-soltas, bem-sucedidas na profissão contra as que ainda buscam um lugar ao sol, corpos de revista contra os outros, um ringue atrás do outro, sem paz.
Enquanto os homens aprendem cedo a apoiar e colaborar com seus pares, as mulheres são ensinadas a fazer justo o oposto. Somos quase sempre levadas a nos esfolar por aprovação, nos julgar mutuamente, comparar nossas curvas e conquistas, disputar a atenção masculina.
Eles jogam no mesmo time, nós rivalizamos o tempo todo, por quase tudo. Um comportamento tão enraizado que, na maioria das vezes, passa despercebido ou soa como algo natural.
A quem interessa essa briga?
A rivalidade entre mulheres não só cansa e rouba a nossa brisa, como também enfraquece a potência da nossa caminhada por liberdade, igualdade e justiça. Mais que isso, a competitividade feminina fortalece o patriarcado, nos afastando da busca por saídas coletivas para problemas comuns.
Perdemos todas, mesmo quando parece que algumas venceram.