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Memória

Lições de bell hooks têm vida longa e grandes dimensões

Suas ideias ensinam sobre cuidar de si e dos outros. Um legado que amplifica o ponto de vista de uma mulher preta, apontando, generosamente, caminhos para todas nós

Publicado em 19 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

19 dez 2021 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Ativista
A escritora e ativista norte-americana bell hooks Crédito: Divulgação/bell hooks
Quase no finalzinho do segundo tempo, o áspero e austero 2021 nos prega mais uma peça com a perda de bell hooks - assim mesmo, em minúsculas. A partida foi discreta e suave. As lições que ela deixa, ao contrário, têm vida longa e grandes dimensões.
Uma das minhas favoritas é a do amor como construção cotidiana, uma prática disciplinada que vai muito além do sentimento e que só ganha sentido na ação. A ética amorosa segundo bell hooks exalta a igualdade, a justiça e o bem-estar coletivo como objetivos.
Amar, ela dizia, significa não fraqueza ou irracionalidade, mas potência. Um sentimento que pode ajudar a romper o ciclo de dor e violência que marca boa parte das relações em sociedades e ambientes patriarcais, sexistas, imperialistas e racistas.
O amor que ela defende não se restringe ao amor romântico e às esferas individuais. Segundo a pensadora, amar verdadeiramente se parece mais com agir movido pelo encontro de afeto, confiança, reconhecimento, respeito, compromisso, honestidade e comunicação aberta.
A ética amorosa de bell hooks nos estimula a caminhar rumo a uma sociedade afetuosa, sem perder de vista a batalha contra as desigualdades, o debate racial e o feminismo.
Sua defesa, feminista até o talo, de que o pessoal é político também passa pela visão do amor como construção cotidiana, uma força capaz de transformar todas as esferas da vida, do local de trabalho ao ambiente doméstico, da vida lá fora ao miúdo dos relacionamentos pessoais, da política às desigualdades raciais e sociais.
bell hooks tinha 69 anos. Nascida em 1952, em Kentucky, no segregador Sul dos Estados Unidos, Gloria Jean Watkins adotou o pseudônimo em homenagem à bisavó materna, Bell Blair Hooks. Para que o conteúdo chamasse mais atenção do que o nome, escolheu grafar tudo em minúsculas.
Seja escrevendo sobre gênero, raça, classe, educação, política ou cultura, em prosa ou poesia, na sala de aula ou nos mais de 30 livros que lançou, na vida e agora na memória, ela relacionou o afeto à revolução, de um jeito único, potente.
Suas ideias ensinam sobre cuidar de si e dos outros, emancipação, feminismos plurais, educação contra o racismo, sororidade e solidariedade. Um legado que amplifica o ponto de vista de uma mulher preta, apontando, generosamente, caminhos para todas nós.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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