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Cinema

"Medida Provisória" nos lembra que resistir é preciso

Cabe a um grupo - potente e crescente, felizmente - resistir. Ele nos lembra que desistir não precisa ser uma opção, mesmo num país onde o inimaginável acontece

Publicado em 01 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

01 mai 2022 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Atores
Taís Araújo e Alfred Enoch em cena do filme "Medida Provisória" Crédito: Divulgação
Distopia, no grego antigo, significa lugar ruim. Entre nós, nos tempos de hoje, a palavra descreve também uma época, uma comunidade ou uma sociedade imaginárias, num futuro não muito distante, onde se vive sob um regime autoritário, tecnologia acelerada e muito sofrimento envolvido.
Na literatura e no cinema, a distopia segue um fio parecido.
Uma coisa possível, embora tenha cara de impossível, algo que a gente pensa que nunca pode acontecer, mas no fundo acontece, para usar a explicação certeira do ator e escritor baiano Aldri Anunciação.
É dele o texto de 2011 que inspirou o filme “Medida Provisória”, uma distopia - olha ela aí - afiada e dentro do possível bem-humorada que chegou recentemente aos cinemas.
No filme, uma medida provisória do governo federal determina que toda a população preta do Brasil seja enviada para a África. O pretexto é “devolver” os descendentes africanos às terras de origem para “compensar” a escravização de seus antepassados.
O número da medida provisória: 1888, exatamente como o ano em que, no dia 13 de maio, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, decretando o fim da escravização no país.
Na história dirigida por Lázaro Ramos, cabe ao Ministério da Devolução organizar o despacho em massa das pessoas de “melanina acentuada”. Cabe a uma funcionária durona, Isabel, exatamente como a princesa do parágrafo anterior, executar o trabalho sujo.
Cabe à vizinha, que podia ser minha, sua, de qualquer um de nós, personificar o racismo que mata, segrega e deprime, sem dó nem vergonha. Cabe ao humor nos fazer pensar: como é que a gente riu disso um dia, como deixamos as coisas chegarem a este ponto, quando foi que nos tornamos tão desumanos dentro das nossas verdades radicais?
Cabe a Conceição Evaristo, Taís Araújo, Emicida, Alfred Enoch, Seu Jorge, à voz de Elza Soares, à memória de Lélia González, às 500 pessoas que caminharam na cena final ilustrarem um dos pilares da porrada que “Medida Provisória” nos dá.
- Na cultura da morte, viver é uma desobediência civil.
Cabe a um grupo - potente e crescente, felizmente - resistir. Ele nos lembra que desistir não precisa ser uma opção, mesmo num país onde o inimaginável acontece.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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