Havia nove mulheres pretas no retrato, e era simbólico que elas estivessem, protagonistas, num espaço branco por tradição. No centro estava a filha de Dona Joana e de um José ausente, o olhar firme dos que olham as coisas em profundidade, a cabeleira cheia de significados, o misto de paz e grandeza de quem tem, sistematicamente, aberto portas para as que vêm e virão na sequência.
Sua escrita ainda tem como objetivo incomodar os sonhos injustos dos moradores da casa-grande, nunca servir de história para niná-los. A fala segue mansa, em contraste com a potência do que ela diz.
Como da outra vez, ouvir o que ela diz nos lembra da capacidade de cura embutida na fala, na escuta, na escrita e na leitura. Vê-la reforça que resistir é preciso, que partilhar histórias nos fortalece. Testemunhar um momento em que outras mulheres brilham ao seu lado nos alenta e inspira a seguir, a despeito de relações onde estamos, rotineiramente, em larga desvantagem.
Um dia depois, ouvi uma frase que ficou comigo o resto da noite:
- A gente só é capaz de fazer aquilo que a gente é capaz de imaginar.
Guilherme Terreri, que a maioria conhece como a drag queen Rita Von Hunty, falava do desejo de ter uma mulher trans na presidência do país que mais mata transexuais e travestis em todo o mundo - o nosso, a propósito.
Uma pessoa que escaparia da estatística de morrer antes dos 35 anos ou de se prostituir como modo de sobrevivência para ocupar o posto mais alto da política nacional - a gente só é capaz de fazer aquilo que a gente é capaz de imaginar.
Estávamos no Território do Bem, um conglomerado de nove bairros que produz uma cultura pulsante, mas também muita violência, especialmente aquela ligada ao tráfico de drogas e à ação da polícia.
A certa altura da conversa, fogos de artifício anunciavam que algo talvez não andasse bem lá no alto. Mas ali, na quadra da escola tomada de gente interessada no poder transformador da leitura, as coisas estavam exatamente do jeito que ousamos planejar.
As pessoas pensavam, sorriam, acreditavam num caminho coletivo feito mais de livros que de armas, de incomodar os sonhos injustos dos moradores da casa-grande, de imaginar para ser capaz de fazer, de endurecerse sin perder la ternura.
Um caminho como o que Conceição Evaristo ajudou a pavimentar para que as mulheres do retrato ao seu lado, Rita Von Hunty e tantas outras possamos trilhar. Um caminho da arte como resistência, da crença em que, graças a ela, dias melhores virão.