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Crônica

O poeta tem razão: a memória é mesmo uma ilha de edição

Vai ver é até por isso que seguimos, equilibrando os pratos, entre uma queda e outra, respondendo à equação feita dos termos lembrar e esquecer, manter e deixar ir, conservar e prescrever, segurar e soltar

Publicado em 06 de Abril de 2025 às 02:00

Públicado em 

06 abr 2025 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

As fotos não refletiam a beleza da noite. Borradas. Tremidas. Escuras demais ou excessivamente iluminadas pela minha falta de habilidade com a câmera. Pouco condizentes com a emoção do que víamos no palco. Sem o som de conga e bongô do senhorzinho que dava um show à parte. Sem o sabor da Cuba Libre com duas pedras de gelo que brindava o momento. Sem a energia das canções, dos afetos, da ancestralidade e das lembranças que pipocavam entre uma música e outra.
Resultado: não tenho registro que preste do lindo show daquela noite.
Tem seu lado bom, me dizem. Afinal, ao escapar do apego ao registro de determinados momentos, escolhemos viver a experiência inteiros. Estamos ali e em mais lugar nenhum. Guardamos as cenas apenas no disco rígido da memória.
Mas e se o disco rígido bugar? E se a memória for engolida pelo excesso de informação a que estamos constantemente submetidos? E se a gente estiver tão afoito que precisa de uma imagem pra sentir que valeu a pena?
Penso no poema de Waly Salomão. No estilo nonchalant, despreocupado, displicente, indiferente — quem dera. Na vida recheada de locais de desova, presuntos, liquidações, queimas de arquivos, divisões de capturas, apagamentos de trechos, sumiços de originais, grupos de extermínios, fotogramas estourados. Na intenção de transmudar todo veneno e ferrugem em pedaço do paraíso ou vice-versa.
A memória é uma ilha de edição.
Amigos, amigas, amizade
Amizades e lembranças Crédito: Shutterstock
Penso na equação feita dos termos lembrar e esquecer, manter e deixar ir, conservar e prescrever, segurar e soltar. Quem decide como as contas são feitas? Quem escolhe o que fica e o que vai? Pra onde olhar quando a gente estiver com saudade da gente mesmo, de rever as miudezas que fazem bem, de recuperar a força perdida?
Vai ver é até por isso que seguimos, equilibrando os pratos, entre uma queda e outra. É o que há. Trabalhar pra gostar do que vê, sem filtro. Colecionar, revisitar histórias, construir ou reconstruir, sem medo. Preencher páginas reais ou metafóricas, sem descuido. Perdoar sempre que der, sem rancor. Cuidar de si, sem desculpa. Se abastecer do que importa, sem julgamento. Editar de vez em quando, porque sim.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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