Como sair de dias difíceis? Em que ponto começar quando você não reconhece o mapa? De onde partir depois de uma parada brusca, um desvio inesperado, uma manobra sem firmeza, uma travessia sem sentido? Quando escapar se você não faz ideia? Por que ficar se for o caso? Quanto limite ainda há até que chegue?
Certos períodos guardam mais dúvidas do que certezas, mais desânimo do que movimento, mais barulho do que música, mais fundo do poço do que mola. Mas, talvez porque seja outono, eles também inspirem a retomar o trajeto, estabelecer novas rotas, buscar impulso pra recomeçar, recuperar a força que ficou pelo caminho.
A estação que oficialmente oferece a colheita de semeaduras anteriores, dias progressivamente mais curtos, noites cada vez mais longas e temperaturas um pouco mais amenas carrega a promessa de reconexão, reconstrução e revigoramentos.
Faz tempo. Enquanto o verão remete a movimento, leveza e simplicidade, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes.
Se um abriga calores e chegadas, o outro estimula a paciência e a sabedoria, investir nos afetos mais serenos, cuidar da casa, da mesa, das estantes, armários, afetos, ideias, lembranças, do que vier.
Como apreendemos naquele livro célebre por ensinar um artista a eliminar bloqueios e se reerguer depois de uma queda criativa, a autocompaixão igualmente nos restaura.
Pratique ser bom para si mesmo de formas pequenas e concretas — o livro ensina —, pois a recompensa da atenção é a cura de uma dor específica ou da dor de sermos, como Rilke dizia, indizivelmente sós.
Talvez porque seja outono, Rilke, a atenção, a autoconfiança e a promessa de reconexão, reconstrução e revigoramentos façam mais sentido ainda. A estação que representa transição e equilíbrio nos estimula a alimentar as bases nem sempre aparentes que sustentam todo o resto.
Sopram novos ventos, e eles convidam a cuidar das essências, dispensar os excessos, traçar novas rotas ou dar significado a antigas, explorar a força dos recomeços, celebrar a potência do tempo.