Quanto você vale pra você mesma? Na hora em que as avaliações externas desconsideram o que você faz, que cifra te representaria se houvesse de haver uma cifra? Como reduzir o peso das referências que vêm de fora e fazer as contas a partir de critérios e valores pessoais, intransferíveis?
O discurso da vitória de Demi Moore no prêmio chiquíssimo do outro domingo escancara a forma como nós mulheres somos desencorajadas a acreditar em nós mesmas.
Pouco importa se você é linda de viver, adequada aos padrões, bem-sucedida e celebrada pelo público. Pouco importa se encontrou sucesso na carreira, se viajou por todos os cantos do mundo, se atingiu o corpo que a sociedade considera modelo, se teve filho, escreveu livro, plantou árvore ou guardou dinheiro nos fundos de renda fixa.
Com raras exceções, nós mulheres valemos o quanto os homens acham que valemos. Somos moldadas a essa crença, por mais equivocada que ela seja, desde que o mundo é mundo. A história se repete: mulheres criadas para colaborar com os homens e competir entre si, homens estimulados a apoiar e colaborar com seus pares. Eles jogam no mesmo time, nós rivalizamos o tempo todo, por quase tudo.
[Perdemos todas, mesmo quando parece que algumas venceram].
Segurando firme o prêmio numa das mãos, Demi Moore contou que, 30 anos atrás, ouviu um produtor dizer que ela era uma atriz talhada para o sucesso comercial, mas não ao reconhecimento como artista. Uma atriz-pipoca, nas palavras do sujeito.
- Eu acreditei nisso. E isso me corroeu com o tempo, afirmou a atriz, reconhecida como nunca acreditou que pudesse ser, aos 62 anos de idade e após 45 de carreira.
Foi preciso que outra mulher - a cineasta Coralie Fargeat - ligasse o alerta da atriz, lembrando a Demi Moore que ela nunca seria suficientemente inteligente, magra ou bonita enquanto usasse como medida a régua dos outros.
No lugar do que se esperava - rivalidade - vimos mulheres aplaudirem outra mulher, comemorar o resultado do trabalho dela, celebrar a vitória da candidata que supostamente tinha menos chance de vencer.
Antes da premiação, Fernanda Torres vinha repetindo exaustivamente que estar entre as indicadas já significava uma vitória, que as chances de vencer eram praticamente inexistentes.
Talvez ela tivesse razão, a julgar pela lógica da geopolítica e da indústria cultural. Mas pode ser que o buraco seja ainda mais fundo, agarrado ao histórico modo de operar que nos ensinam desde sempre: o de acreditarmos pouco em nós mesmas.