A canção favorita de Karlo Schneider, um dos quase 500 mil brasileiros mortos pela
Covid-19, era “In My Life”, dos Beatles. Nascida de um longo poema em que John Lennon refletia sobre os endereços favoritos de sua infância, a música sobre lugares, coisas e amores que se foram ou se transformaram atravessou os anos a salvo dos efeitos do tempo, como apenas os clássicos são capazes de fazer.
Schneider, ao contrário, viveu pouco, vítima da combinação de um vírus de difícil controle com negacionismo e falta de responsabilidade. Fã de carteirinha do quarteto de Liverpool, ele partiu em março deste ano, aos 40, mesma idade que Lennon tinha quando foi assassinado por Mark Chapman, em dezembro de 1980.
Muito antes, no entanto, quando a pandemia não estava nem nos nossos piores pesadelos, Schneider pediu a quatro amigos que escrevessem cartas para sua filha que ia nascer, com conselhos para o futuro e pequenas observações sobre a vida, o mundo e provavelmente as canções dos Beatles.
As correspondências nunca foram lidas e deveriam ser entregues quando a menina completasse 15 anos, exatamente em 2021.
Acontece que as cartas sumiram.
Ao que tudo indica, as cartas escritas para Bárbara foram guardadas na capa de algum ou alguns desses álbuns.
Sim, a menina se chama Bárbara em homenagem à mulher do baterista Ringo Starr. O desejo inicial do pai era homenagear a esposa de outro Beatle, o que compôs sua canção favorita, aquela, lembram? Sobre lugares, coisas e amores que se transformaram ou partiram. A mãe achou melhor não, e assim o bebê não foi batizado com o nome de Yoko Ono.