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Cinema

“O Último Azul”: não há decreto que proíba a vontade de atravessar o próprio rio

Filme nos lembra que nunca é tarde para sonhar e partir em busca do que se sonha, com mais ou menos obstáculos, a despeito do que pesa. Saí do cinema com os versos da canção “Rosa dos Ventos” na cabeça

Publicado em 05 de Outubro de 2025 às 03:00

Públicado em 

05 out 2025 às 03:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
A letra de Chico Buarque e a voz de Maria Bethânia na cena final de “O Último Azul” embalavam com perfeição o que havíamos visto. Estava tudo ali. Primeiro o medo, o trágico, o pálido, pregas, trevas e ver o tempo correr. Depois um amor contido que talvez escandalizasse os desavisados, um despertar grandioso, ainda que tardio, a redenção da água doce inundando a amargura do mar e quem sabe chover perdão.
No filme, assistimos à jornada de Tereza, uma mulher de 77 anos que decide fugir do destino imposto aos idosos de um Brasil distópico. A lei determina que quem completa 75 anos seja confinado em colônias distantes da vida produtiva do país, para que os mais jovens possam se ocupar e produzir sem se preocupar com os mais velhos.
Em “O último azul”, Tereza está em busca de realizar seu último desejo antes de sua mudança forçada pelo governo (Imagem: Reprodução digital | VITRINE FILMES)
No filme “O último azul”, protagonista Tereza está em busca de realizar seu último desejo antes de sua mudança forçada pelo governo Crédito: Reprodução digital | Vitrine Filmes
A protagonista, no entanto, tem outros planos. Seu desejo antes de ser compulsoriamente exilada é andar de avião pelo menos uma vez na vida. Tereza então embarca numa viagem pelos rios e afluentes da Amazônia, encontrando toda sorte de figuras durante a travessia. A liberdade com que vivem contrasta com a contidez da personagem, que se aventurou quase nada ao longo de sua caminhada, sonhou modesto, quis pouquíssimo além de sobreviver e criar a filha sozinha.
A certa altura, um avião sobrevoa uma cidade à beira do rio com uma faixa onde se lê que O FUTURO É PARA TODOS, assim mesmo, em letras grandes. A voz do locutor explica, com fina ironia, que o Estado tem sobrevoado de Norte a Sul do território, para celebrar os idosos e espalhar mensagens de esperança, otimismo, patriotismo e glória.
Sabemos que a verdade passa bem longe disto. Mas Tereza, “O Último Azul” e a “Rosa dos Ventos” nos lembram que nunca é tarde para sonhar e partir em busca do que se sonha, dentro ou fora, com mais ou menos obstáculos, a despeito do que pesa. A esperança, afinal, não deixa de ser uma forma de resistência, e não tem decreto capaz de proibir a vontade de atravessar o próprio rio.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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