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Crônica

Hermeto sabia: leveza do improviso só vem depois de muito ensaio

Ouvir sua música e exaltar sua memória é lembrar do paradoxo só aparente entre solidez e leveza, exercício e imprevisto, ensaio e improviso

Publicado em 21 de Setembro de 2025 às 03:30

Públicado em 

21 set 2025 às 03:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas
Era sábado quando Hermeto Pascoal encantou-se, dia de feira e música, de elegância e encontro, de desacelero e vento, de improviso e pequenas excentricidades. Não deve ter sido acaso.
Sua mistura de sutileza e balanço guardava a leveza dos melhores dias, a harmonia dos acordes perfeitos, o uso cadenciado do ritmo e da pausa, o chamego precioso entre baião, forró, choro e jazz.
A partida seguiu toada parecida.
Como um baobá, de vida longa, raiz forte e uma invejável capacidade de reservar dentro de si recursos para atravessar grandes períodos de seca, o gênio albino, baixinho e quase cego nascido no sertão de Alagoas acumulou inspirações e experiências que resistiram e resistirão.
Para além do tempo e do espaço, o filho ilustre de Olho d’Água das Flores celebrou a invencionice. Hermeto tirava som do que tivesse nas mãos, fosse uma sanfona de oito baixos, fossem flauta, piano, escaleta, saxofone, máquina de costura, chaleira, copo d’água, brinquedo de criança ou a partir do canto dos pássaros.
Ouvir sua música e exaltar sua memória é lembrar do paradoxo só aparente entre solidez e leveza, exercício e imprevisto, ensaio e improviso.
Não é de hoje, tampouco é novo.
Hermeto Pascoal & Grupo é uma das atrações do “Marien Calixte Jazz Music Festival”
Hermeto Pascoal & Grupo  Crédito: Gabriel Quintão/Divulgação
À primeira vista um não combina com o outro. A estabilidade não condiz com o movimento. A harmonia não suporta o inesperado. A poesia não cabe no cálculo. À primeira vista, mas não dois ou dez anos depois, quando a gente enfim percebe que precisa de estabilidade para deixar fluir, treinar duro para invocar um acorde, um encontro ou uma frase sem aviso prévio.
À primeira vista um não combina com o outro. Tempo e imaginação. Fé e bom senso. Equilíbrio e rompante. À primeira vista, mas não dois ou dez anos depois, quando a gente percebe a profundidade do buraco, o tamanho do rombo, a envergadura do sentimento, a intensidade do vazio e a grandeza do encontro.
Às vezes é o contrário, e a gente nota que pouca coisa no mundo merece ser grave, quase nada. Precisa tempo, desapego, reescrita, tropeços e expectativas desfeitas para aprender o que o mestre de camisa estampada e barba de profeta parecia saber desde sempre. Ele tinha, e segue tendo, toda a razão: a gente só alcança liberdade para improvisar quando ensaia muito, e com muita disciplina.

Ana Laura Nahas

Ana Laura Nahas Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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