Outro dia, enquanto viajava pela centenária estrada de ferro Vitória a Minas, andei pensando na potência dos Descansos, com D maiúsculo.
Diferentemente do ato de descansar que encontramos nos dicionários da língua portuguesa - repouso, sossego, folga ou então um objeto sobre o qual alguém se assenta ou se apoia -, os Descansos com D maiúsculo vêm do espanhol e são mais simbólicos, menos concretos, pouco tangíveis, nada literais.
Criá-los exige examinar a vida de agora para o início, marcando las muertes chiquitas e las muertes grandotas, as pequenas e as grandes mortes.
Pode ser uma expectativa desfeita pelo moedor universal de desfazer expectativas, um sonho suspenso pelas durezas do expediente, um projeto desarranjado, um coração partido, um hábito que já era, aquela pessoa que um dia morre na gente, mesmo que continue vivinha da silva.
Pode ser um emprego perdido, uma amizade engolida pelas lonjuras da vida, uma partida não programada que deixou um rombo no lugar, uma mala pesada, uma estrada esburacada, uma parceria que não dá mais, um desmanche qualquer.
Viver tem seus maus acúmulos e, para os Descansos com D maiúsculo, precisamos esquecer cada um deles, perdoando e enterrando dores, arrependimentos, deslizes, saudades, excessos, ausências, atalhos mal-acabados, raivas e resíduos.
Aprendi sobre eles no capítulo 12 do livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da contadora de histórias e terapeuta Clarissa Pinkola Estés.
- Olhe a linha cronológica da sua vida e diga: Onde estão as cruzes? Onde estão os pontos que devem ser lembrados, que devem ser abençoados? Em todos eles há significados que você trouxe até sua vida atual. Eles precisam ser lembrados, mas ao mesmo tempo precisam ser esquecidos. Leva tempo. E exige paciência.
Inspirada num costume de regiões do velho México e do sul dos Estados Unidos, onde os Descansos são lugares que homenageiam mortos de fato, a prática ensinada no livro “Mulheres que Correm com os Lobos” tem outro propósito.
Seu objetivo é reduzir medos, isolar rancores, botar pensamentos destrutivos de molho, abrir espaço para o que houver de vir. Mais que isso, os Descansos com D maiúsculo prendem certas coisas à terra para que elas não fiquem nos perseguindo.
O trem tem dessas coisas de levar a gente, devagar e constante, a pensamentos que pedem outro ritmo, outra cadência. E de repente ali estavam, entre paisagens e histórias de uma ferrovia centenária, os Descansos feitos pra encerrar e enterrar coisas que não cabem mais.